Sala do Minho - Galos de Barcelos
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fechado em Belém mas aberto aqui
Carta Aberta a Sua Ex.ª o Primeiro MinistroEm 1948, nasceu em Belém o Museu de Arte Popular. Com um projecto de Jorge Segurado, a partir do Pavilhão da Vida Popular da Exposição do Mundo Português de 1940, trata-se de um dos raríssimos museus construídos de raiz em Portugal para receber um determinado espólio, por sinal a melhor colecção de arte popular existente no País. Foi, para a sua época, um projecto inovador de museologia, concretizado decorativamente com a colaboração de alguns dos nomes mais ilustres do modernismo pictórico português. O edifício e o seu conteúdo constituem, por isso, um todo que não pode nem deve ser separado.No passado dia 7 de Maio, uma resolução do Conselho de Ministros confirmou a decisão de instalar no edifício do Museu de Arte Popular um novo Museu da Língua. Esta decisão obriga-nos, neste momento, a manifestarmo-nos publicamente. Por preocupação com um património histórico único e em defesa daquilo que fomos, somos e queremos ser.Assim, apelamos a uma reflexão e intervenção do Estado no sentido de:- preservar um espaço museológico e respectivo espólio únicos, memória da Exposição do Mundo Português e da criação popular portuguesa;- criar condições para a renovação do seu projecto, conservando-lhe a memória mas adaptando-o a uma fruição contemporânea - tal como acontece hoje com tantos museus de êxito dedicados a temática semelhante pelo mundo fora;- incentivar o estudo e a divulgação da arte popular portuguesa que, da cerâmica à ourivesaria, passando pela extraordinária produção têxtil (para citar apenas algumas das mais notórias áreas artesanais portuguesas), é ainda marca portuguesa reconhecida internacionalmente;- estimular, através da “montra” importantíssima que pode ser este museu, com gosto conhecedor, criterioso e exigente, a produção artesanal portuguesa, uma actividade com novas potencialidades económicas num mercado global de nichos, que pede qualidade e especialidade.- possibilitar que este museu se torne a plataforma inovadora de ligação entre o saber dos velhos artesãos que neste preciso momento se perde, sem transmissão, e a apetência de toda uma nova geração de designers e artesãos;- salvaguardar um museu que, dada a sua temática capaz de atrair a atenção dos numerosos turistas que nos visitam, será um complemento precioso para a zona de Belém que se pretende requalificar e que ele ajudará a enriquecer;Não somos contra o Museu da Língua. Mas não compreendemos porque razão o nascimento de um novo museu deve implicar a destruição de um outro. Acreditamos que ambos os Museus podem ser uma afirmação importante da nossa identidade. Porque um país é feito da sua memória, certamente, mas sobretudo da sua capacidade em saber entendê-la e aproveitá-la, exibindo e estimulando o poder criativo de uma identidade. Não temos dúvidas que o Museu de Arte Popular ainda pode vir a ser um objecto instigante de conhecimento, reflexão e acção. Assim ele se torne de facto um museu vivo.
Ex.mo SenhorMinistro da CulturaAssunto: Museu de Arte Popular (MAP)1. Na década de 1980, a então directora do MAP apresentou ao Instituto Português do Património Cultural o respectivo pedido da classificação, com ampla soma de argumentos substanciais que fundamentavam a importância histórica, cultural e museológica daquele museu fundado em 1948.Nessa proposta, relevava-se, em primeiro lugar, a originalidade, no contexto português e europeu, do projecto do arquitecto Jorge Segurado que, utilizando o edifício e a memória da decoração do Pavilhão da Vida Popular da Exposição do Mundo Português (da autoria dos arquitectos Veloso Reis e João Simões), neles instalou uma museografia inovadora, do ponto de vista estético e comunicacional, devendo notar-se a qualidade do design das vitrines e estantes então expressamente fabricadas.Totalmente alterado no seu interior depois da Exposição de 1940, o edifício conservou no exterior os elementos escultóricos de Barata Feyo e Henrique Moreira, acolhendo um novo programa de pinturas murais, ao mesmo tempo decorativas e complementares à museografia, que foi da autoria de alguns dos nomes mais ilustres do modernismo pictórico, e que inequivocamente importa preservar.Destacam-se entre os seus autores Carlos Botelho (os vastos murais da Sala das Beiras), Thomaz de Mello (Tom) e Manuel Lapa (átrio do Museu e a Sala de Entre Douro e Minho – esta uma notável pintura que lembra Torres Garcia quanto ao alfabeto de sinais e ao seu espalhamento serial, para além de fazer a ponte com o "sistema" pictural de Joaquim Rodrigo), Estrela Faria (Alentejo), Paulo Ferreira (Estremadura).Essa museografia modernista, com grande requinte no tratamento da luz, dos circuitos, da distribuição cenográfica das peças e da eficácia do grafismo foi herdeira da experiência da equipa artística do SPN que, ao longo da década de 1930, realizou diversos pavilhões que representaram Portugal em certames internacionais, colhendo sistemáticos elogios e destacados prémios. Por isso, o pedido de classificação do MAP acentuava, correctamente, o facto de a sua museografia dever ser considerada uma peça fundadora do moderno design de exposições em Portugal.Deve ainda ser relevado que, apesar da articulação orgânica do MAP com os princípios ideológicos e as estratégias da “Política de Espírito” de António Ferro, as novas figuras da etnologia portuguesa, como Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira, segundo testemunho de Benjamim Pereira que com eles elaborou o projecto do Museu Nacional de Etnologia, consideraram o MAP uma criação importante para valorizar as culturas tradicionais portuguesas.Os dados apontados obrigam a sujeitar a profunda crítica os simplismos de quem continua a considerar o MAP um espelho do Estado Novo, confundindo as dinâmicas sociais, culturais e simbólicas com a sua apropriação ideológica e política.2. Depois da criação do Instituto Português de Museus (IPM), em 1991, a sua primeira directora, Simonetta Luz Afonso, empenhou-se, com grande entusiasmo, na renovação do MAP. O projecto de requalificação foi do arq. Luís Rebelo de Andrade, modernizando os gabinetes de trabalho, criando uma sala de exposições temporárias e valorizando as possibilidades de utência do pequeno claustro. Assim renovado, o MAP realizou, nos anos subsequentes, uma série de exposições temporárias, a mais notável de todas dedicada à iconografia popular de Santo António.3. A renovação do MAP continuou a ser preocupação do IPM que, no âmbito do 3º Quadro Comunitário de Apoio, apresentou ao Programa Operacional da Cultura (POC) uma candidatura para requalificar estruturalmente o edifício, primeiro ao nível das fundações e, numa segunda fase, ao nível das coberturas. As obras realizaram-se, em faseamentos sucessivos, entre 2000 e 2007 com assinalável sucesso.Para a directora do IPM que candidatou aquelas obras a fundos comunitários, a sua justificação era inequívoca: à renovação do edifício, suceder-se-ia a reinstalação das colecções, respeitando os valores patrimoniais da primitiva museologia mas esclarecendo os públicos sobre os seus contextos ideológicos, devedores da etnologia oitocentista e da sua apropriação nacionalista por parte do Estado Novo. Havia também a intenção de vir a criar uma área nova no MAP, no terreno anexo que lhe pertence, para possibilitar confrontos e enriquecimentos com outras colecções afins ou com a produção contemporânea.4. As iniciativas elencadas, todas elas visando a salvaguarda, valorização e modernização do MAP foram dramaticamente interrompidas em 2006, quando a então Ministra da Cultura (MC) anunciou o projecto «Mar da Língua Portuguesa, Centro de Interpretação das Navegações», que desde 30 de Outubro desse ano está descrito no “Portal de Governo”. Tal entidade iria ser instalada precisamente no edifício do MAP que por isso seria extinto e as suas colecções depositadas no Museu Nacional de Etnologia (MNE).Este é o contexto do Despacho de 28-11-07 do Director do IGESPAR IP, revogando o Despacho de 1991 que iniciara o processo de classificação. O edifício do MAP passou a estar apenas abrangido pela Zona de Protecção do conjunto monumental de Belém, o que, deliberadamente, deixa aberta a possibilidade de se vir a ignorar que o edifício e o museu são um todo coerente. No entanto, o MAP não foi ainda formalmente extinto e as suas colecções mantêm-se, no MNE, na figura sempre temporária de depósito.5. Em face do exposto, os signatários desta petição vêm solicitar a reabertura do processo de classificação do MAP, tendo em conta que:a. O edifício do MAP é uma sobrevivência historicamente relevante da Exposição do Mundo Português, testemunho único de um pavilhão expositivo que agrega a arquitectura, a escultura e a pintura num programa modernista.b. A recente requalificação do edifício – na sequência de obras financiadas pela Comunidade Europeia, estritamente destinadas à salvaguarda e manutenção do MAP – cria as condições para que as colecções a ele regressam, garantindo a preservação patrimonial e museológica de um conjunto integrado, único em Portugal, da mais relevante importância para valorizar as artes populares numa perspectiva contemporânea.A hipótese da não reabertura do MAP no edifício assim requalificado configura um incumprimento dos objectivos do financiamento comunitário que será seguramente passível de uma penalização do Estado Português.c. A reanunciada intenção do MC de instalar no MAP o Museu da Língua comprometerá definitivamente a reinstalação das colecções do anterior Museu e, dadas as próprias características dos conteúdos mediáticos para ele anunciados, põe em risco a integridade arquitectónica do edifício e da sua decoração escultórica e pictórica, a qual teria naturalmente de ser ocultada por razões técnicas e também por inadequação conceptual e ideológica ao seu eventual programa (o nacionalismo das orientações dos anos 1930/40 versus universalismo).Estes factos configuram um crime patrimonial, uma imprevista e injustificada alteração do panorama museológico lisboeta e nacional, para além de ser um grave incumprimento dos compromissos assumidos em relação aos financiamentos da CE para a requalificação daquele Museu.d. A decisão do MC e do Governo de extinguir um museu e de criar outro não pode ser um acto pessoal, sem qualquer discussão prévia nem escrutínio por parte de especialistas. Será necessário alterar a lei orgânica do Instituto dos Museus e da Conservação que continua a manter o Museu de Arte Popular no elenco dos museus dependentes daquele organismo. Será necessário reunir e auscultar o Conselho Nacional de Cultura que, escandalosamente, o MC continua a ignorar. Será necessário explicar publicamente a origem dos dinheiros públicos que estão a ser investidos no projecto de reconversão do edifício e os critérios que presidiram à selecção das equipas envolvidas.Lisboa, 18 de Maio de 2009Catarina Portas, EmpresáriaJoana Vasconcelos, Artista plásticaRaquel Henriques da Silva, Professora da Faculdade de Ciências Socias e Humanas, UNLRosa Pomar, DesignerAlexandre Alves Costa, Professor da Faculdade de Arquitectura,Universidade do PortoAlexandre Pomar, jornalista, crítico de arteAna Tostões, Professora do Instituto Superior Técnico, vice-presidente da Ordem dos ArquitectosAntónio Lamas, Professor do Instituto Superio Técnico, presidente do Conselho de Administração da sociedade Parques de Sintra Monte da LuaAntónio Pinto Ribeiro, Professor, programador culturalBárbara Coutinho, Directora do MUDEDalila Rodrigues, Historiadora de Arte, directora da Casa das Histórias e Desenhos – Paula RegoFernando Pereira Marques, Professor universitárioHelena Roseta, Arquitecta, Vereadora da Câmara Municipal de LisboaJorge Calado, Professor do Instituto Superior TécnicoJoão Leal, Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, UNLJosé Aguiar, Professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, presidente do ICOMOSJosé Luís Porfírio, Crítico de arte, antigo director do Museu Nacional de Arte AntigaJosé Manuel Fernandes, arquitecto, professor da Faculdade de Arquiectura, UTLLourenço de Almeida, Vogal de Direcção do Centro Nacional de CulturaLuís Raposo, Arqueólogo, Presidente do ICOMManuel Botelho, Pintor, professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de LisboaManuel Falcão, Consultor de Estratégia de ComunicaçãoManuela Júdice, Vereadora da Câmara Municipal de LisboaNatália Correia Guedes, Directora do Museu do OrienteNuno Júdice, Professor universitário, escritorNuno Portas, Arquitecto, professor jubilado da Faculdade de Arquitectura, Universidade do PortoPaula Teixeira da Cruz, Presidente da Assembleia Municipal de LisboaPaulo Ferrero, Fundador do Fórum Cidadania LxRui Afonso Santos, Historiador de Arte, Museu do ChiadoSérgio Fernandez, Professor da Faculdade de Arquitectura, Universidade do PortoTeresa Costa Pinto, Arquitecta, PhD student, MMU ManchesterSimonetta Luz Afonso, Gestora cultural, conservadora de museuVictor Pinto da Fonseca, coleccionador, galerista
Em 2006, o Ministério da Cultura despejou o Museu de Arte Popular que havia em Lisboa. Devíamos então ter um museu para estes artistas?
Olhe...devíamos ter. É uma grande lacuna e infelizmente destruiu-se o único museu que havia sem ter criado nenhuma alternativa. Foi um erro cultural. Portugal deve ter um museu em que a arte popular se confronte com outras expressões e que tenha uma dignidade própria. Não se trata de ter um museu de tipo popularucho ou de exaltação passada. Mas de um museu onde estes artistas, que não são menos artistas do que os outros, se possam exprimir.
António Gomes de Pinho, em entrevista à Visão. Ler o texto na íntegra.
Levantamento do parque museológico e monumental da zona de Belém (da Torre de Belém à Cordoaria Nacional), detectando virtualidades, abandonos, eventuais lacunas e elaborando um plano integrado de valorização de cada peça e do conjunto;Em relação ao conjunto, adopção de medidas potenciadoras dos circuitos integrados, em domínios tais como percursos pedonais, bilheterias comuns, programação, promoção e merchandising articulados, parqueamentos de viaturas, navette de ligação gratuita, mediante a apresentação de títulos de entrada em museus ou monumentos;Em relação a peças individuais:Reabertura do Museu de Arte Popular no seu lugar próprio, devidamente modernizado, mas respeitando a colecção e o conceito original;Dinamização do Museu Nacional de Etnologia, promovendo o acesso ao mesmo pela sua inclusão na rede assim definida;Ampliação do Museu de Marinha em dois sentidos: para os terrenos disponíveis a poente das instalações actuais e para a Cordoaria Nacional, onde deverão também ser colocados o Arquivos Histórico e a Biblioteca Central de Marinha, retirando-a dos Jerónimos e demolindo o edifício onde se situa, o qual constitui um verdadeiro atentado ao espírito daquele lugar;Ampliação do Museu Nacional de Arqueologia no Mosteiro dos Jerónimos, retomando os projectos já existentes para o efeito e adaptando-os agora às possibilidades que se abririam com a transferência para a Cordoaria Nacional da Biblioteca Central de Marinha e, eventualmente, de algumas áreas ocupadas presentemente pelo Museu de Marinha;Manutenção do conjunto mais emblemático de coches nas instalações actuais do Museu Nacional dos Coches, iniciando imediatamente um programa urgente do seu restauro;Criação na Cordoaria Nacional de um centro museológico industrial-naval e de arqueologia subaquática, explorando as ligações ao rio Tejo, onde, em posição fronteira, deverá ser criada um cais para acostagem e visita a navios históricos, em ligação com o referido núcleo museológico;Finalmente, quanto à intenção de construção de um novo Museu Nacional dos Coches, no caso de não ser considerada possível a sua total reversibilidade (o que idealmente mantemos como desejável) e dando por adquirido nas suas linhas gerais o projecto de arquitectura já existente, adopção das seguintes medidas:Afectação ao Museu Nacional dos Coches, para instalação de serviços e ampliação dos espaços expositivos, da construção anexa ao edifício principal, situada em frente do referido Museu;Instalação no edifico principal de um novo museu, cuja necessidade se faça sentir depois do levantamento indicado no ponto 1. Os critérios de escolha para o efeito deverão privilegiar conteúdos susceptíveis de constituírem uma poderosa mais-valia para a promoção dos fluxos turísticos (nacionais e internacionais) na zona de Belém, servidos por tecnologia de última geração e não tanto por colecções patrimoniais intrinsecamente únicas. Entre outras possíveis ideias, avançamos desde já com a de um Museu da Viagem, capaz de evocar a diáspora portuguesa em toda a sua extensão temporal, nomeadamente deste a chamada Epopeia dos Descobrimentos (colocando em relevo os aspectos antropológicos do contacto com o “outro” e a dimensão técnica e científica da época) até à gesta das viagens da emigração dos séculos XIX e XX.Luís RaposoRaquel Henriques da Silva
Hoje, vou bordar. Não sei bordar grandemente mas não faz mal. Vou aprender com quem souber fazê-lo, eu e todos aqueles que se juntarem a este lavor de protesto que hoje à tarde acontecerá diante das portas fechadas do Museu de Arte Popular, em Belém. Vamos bordar um Lenço dos Namorados em versão gigante declarando a nossa estima por este museu que, mais uma vez, permanecerá fechado na data em que todos os outros comemoram o Dia Mundial dos Museus.
Desde 2006, diversas pessoas de vários quadrantes políticos ou até sem quadrante nenhum escreveram, em nome individual, sobre a decisão de encerramento do Museu. Mas, até hoje, nenhum partido se pronunciou sobre a questão. Eu pensava que os partidos também serviam para interrogar decisões políticas e arbitrárias deste tipo mas, pelos vistos, enganei-me. Até a Papa Maizena parece ter aos olhos partidários maior relevância que a destruição de um Museu único no panorama museológico português. E, no entanto, há aqui mais do que uma questão a merecer atenção, como o facto de as obras de conservação das fundações e cobertura do edifício, já terminadas, terem sido custeadas com dinheiros comunitários atribuídos para a recuperação do MAP – e, afinal, era tudo mentira. Se este é o exemplo do Estado, há legitimidade para todos os privados que concorrem aos QRENs e similares desviarem os fundos que recebem para o que entretanto lhes ocorrer?
A verdade é que o MAP é um museu incómodo para muita gente, de esquerda e de direita. Mas faço minhas as palavras recentes e certeiras de Sara Figueiredo Costa no seu blogue www.cadeiraovoltaire.wordpress.com: (…) a cultura e o património não arrastam o seu contexto histórico como se de uma praga alastrável ao presente se tratasse. Sabemos que a Exposição do Mundo Português se realizou durante a ditadura de Salazar, mas se isso é suficiente para se destruir um Museu que não se dedica à ditadura de Salazar e sim à produção, ao imaginário e às vivências de um país, então destruamos tudo o que se ergueu durante os anos negros do fascismo. Será isso solução para lidarmos com a nossa memória colectiva?”. Muito pelo contrário, também eu acredito que “(…) o facto de o MAP ser o resultado de uma ideologia que repudiamos não só não pode justificar a sua destruição como pode ser um elemento fundamental para se estudar e compreender o período em que foi construído”.
Face ao silêncio dos partidos que nos representam e diante da ausência de justificações do Estado, em quem deveríamos confiar para preservar a nossa história e património, resta-nos a nós, cidadãos, agirmos. Por isso, vamos pegar em agulhas e picá-los. Bordando quadras de amor popular a um Museu do qual, imagine-se, gostamos.
Catarina Portas
O espólio de arte popular espera empacotado no Museu de Etnologia o regresso à origem, como defende lenço a entregar ao ministro da Culturaa Eram 12 à volta de um lenço gigante, sentados em cadeirinhas de madeira, saindo uns, entrando outros, desfiando os novelos coloridos, bordando sem parar a quadra de amor que ao museu-namorado haviam de dar. "Museu de Arte Pupular/Sem ti o que eide ser/Queres-me trocar por outro/Inda hás-de-te arrepender." Erros de português transformados em "grande momento criativo" à memória dos Lenços de Namorados de Viana do Castelo, justificou a artista plástica Joana Vasconcelos, uma das organizadoras do "acto de consciência cívica sobre a identidade e a tradição", organizado "em 48 horas" para protestar contra a reconversão do Museu de Arte Popular no Museu da Língua Portuguesa, decidida no Conselho de Ministros de 7 de Maio, no âmbito do plano de requalificação da frente ribeirinha de Lisboa. Do lado de lá dos buraquinhos das janelas do edifício nascido para a Exposição do Mundo Português (1940) estão três anos de clausura que deram em nascer ervas daninhas entre as pedras. Está o silêncio de um museu fechado que antes era visitado por "27 a 30 mil pessoas por ano" e onde havia "um mundo" de coisas para ver, um museu espoliado que se viu "sem nada" em meros 15 dias no início do ano de 2006, recorda Maria Luísa Abreu Nunes, conservadora do Museu de Arte Popular durante 27 anos. O "sexto ataque" Arqueóloga reformada, Maria Luísa, dedal no dedo, "agora já" pode "falar" e voltou "à guerra" contra "o sexto ataque" ao museu (a ideia de dar ao edifício outra utilização tem sido recorrente). Mas isto foi depois de "dez meses de clausura a ouvir passarinhos e a ver o mar". Porque precisou de descansar depois do "horror" que foi assistir ao despejo do espólio para o Museu de Etnologia, onde permanece "empacotado" e "invisível". "Foi muito violento, fomos muito maltratados", conta, explicitando que nada foi deixado - "nem uma cadeira, nem um calorífico" para enfrentar as "temperaturas negativas no Inverno" - às cinco pessoas que ficaram a trabalhar no museu após a saída do espólio de "um Portugal inteiro". Mas agora é tempo de bordar, até porque "o museu ainda não foi extinto formalmente", apelou Raquel Henriques da Silva, historiadora de Arte e também organizadora da acção colectiva que ontem teve lugar em frente ao museu, à qual compareceram, entre outros, a artista plástica Ana Vidigal, o presidente da Fundação de Serralves, António Gomes de Pinho, o historiador Rui Tavares, a arquitecta Ana Tostões e o escritor Rui Cardoso Martins. Bordar "é viciante", admitia a empresária e co-organizadora do protesto Catarina Portas, de avental tradicional. Quando acabado, o lenço seria entregue "ao pai do namorado", o ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, informou, admitindo que a acção evolua para uma petição (mas para já há um blogue: museuartepopular.blogspot.com). O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) só sairá do actual espaço, em Belém, para a Cordoaria depois do próximo ano, disse o director do Instituto dos Museus e Conservação, Manuel Bairrão Oleiro. O MNA será instalado na Cordoaria Nacional, à Junqueira, "em 2011, se houver condições", garantiu o responsável à Lusa. Sobre os riscos sismológicos da zona, o dirigente argumentou: "Lisboa é uma zona de risco sísmico. Todos os museus e edifícios históricos têm esse risco. Tem de ser avaliado, mas não creio que seja fundamental para que a transferência do museu não possa ocorrer." A transferência para a Cordoaria permitirá a expansão do vizinho Museu de Marinha e a exposição de parte do espólio de arqueologia subaquática.
O Museu da Língua Portuguesa vai, afinal, ficar mesmo instalado no edifício que acolheu o Museu de Arte Popular, em Belém, e a sua instalação vai ficar a cargo da sociedade Frente Tejo, S.A.A decisão foi hoje tomada em Conselho de Ministros, que a justifica dizendo que a intervenção visa “promover a requalificação do edifício do antigo Museu de Arte Popular, situado na Avenida de Brasília, reconvertendo aquele que foi originalmente o pavilhão da Vida Popular da Exposição do Mundo Português num inovador e contemporâneo espaço multimédia e centro privilegiado de promoção da língua portuguesa”.A nova instituição, com a localização em Belém atrás referida, foi lançada pela anterior ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, em 2006, então com a designação de Museu do Mar e da Língua Portuguesa, num projecto assumidamente inspirado no museu congénere existente em S. Paulo.O actual ministro José António Pinto Ribeiro, pouco tempo depois de tomar posse do cargo, confirmou a sua intenção de avançar com o projecto, mas, em Maio do ano passado, admitiu a mudança de localização. Uma hipótese que então colocou em cima da mesa foi a estação ferroviária do Rossio, no centro de Lisboa, invocando, precisamente, o caso do museu brasileiro, que está instalado na Estação da Luz, um interface de metro e comboio.Mais tarde, Pinto Ribeiro viria a recuar para a primeira localização, que anunciou, por exemplo, na sua mais recente intervenção na Comissão Parlamentar de Cultura da Assembleia da República, no dia 8 de Abril, quando associou o Museu da Língua Portuguesa ao vasto plano de requalificação da zona de Belém, para onde está também projectado o novo Museu dos Coches, com projecto do arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha.Sérgio C. Andrade 07.05.2009 - 17h35
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