museu de arte popular

Avatarfechado em Belém mas aberto aqui

O MAP no Inventário do Património do IPPAR

O edifício do Museu de Arte Popular teve no inventário do património do IPPAR divulgado na net uma extensa ficha de identificação, descrição e registo histórico muito mais completa e informativa do que aquela que é agora acessível no site dos mesmos serviços, em vias de integração no actual Igespar.

A versão resumida, que agora se pode ler aqui, é já posterior a 2007 e à "Revogação do Despacho de 12 de Novembro de 1991 que Determinou a Abertura do Processo de Instrução Relativo à Eventual Classificação do Museu de Arte Popular, por Despacho de 28-11-2007 do Director do Igespar".

Note-se que agora se omite a referência ao arquitecto Jorge Segurado, que readaptou o pavilhão de 1940 para a Exposição do Mundo Português para que nele se instalasse em condições definitivas o Museu de Arte Popular, anunciado em 1944 e inaugurado em 1948. A omissão tem especial gravidade por não distinguir entre a configuração arquitectónica do edifício em 1940, no seu exterior e no interior, e o que foi a sua modificação mais ou menos notória entre 1943 e 47. De facto, é esse estado final e actual do edifício (com as suas posteriores alterações) que se encontra salvaguardado pela ZEP e não qualquer "traça primitiva" de 1940.
Outra omissão relevante respeita aos processos de obras que o edifício atravessou, e especialmente as que se iniciaram em 2000, ao abrigo do POC, com vista à reabilitação das instalações do Museu de Arte Popular.

Antes da
"Revogação do Despacho de 12 de Novembro de 1991 que Determinou a Abertura do Processo de Instrução Relativo à Eventual Classificação do Museu de Arte Popular" - por Despacho de 28-11-2007 do Director do Igespar - era assim:
PATRIMÓNIO
Protecção
Em vias de classificação; incluído na Zona Especial de Protecção do Mosteiro de Santa Maria de Belém (v. PT031106320005)

Enquadramento
Urbano, destacado, isolado, implantado em plataforma costeira, junto ao Rio Tejo entre as docas de Belém e de Bom Sucesso. A N., separado pela estrada e linha férrea de Cascais, o Centro Cultural de Belém (v. PT031106320402). A O., os edifícios da Defesa Marítima e a E. o Espelho de Água (v. PT03110320601) e o Padrão dos Descobrimentos (v. PT031106320600).

Descrição
De planta irregular, em L, composta pela articulação de vários corpos de planta rectangular e quadrada, o edifício apresenta volumetria escalonada, sendo a cobertura efectuada por telhados a 4 águas e em terraço. A organização dos volumes acentua a sua distribuição horizontal, e caracteriza-se genericamente por corpos de duplo pé direito, com caixa murária em reboco pintado com roda-pé em tijolo, e abertura a ritmo irregular de janelões estreitos rectangulares, dispostos em agrupamentos.
O alçado principal a N. é constituído por 5 corpos interligados entre si. Distingue-se a O., corpo mais elevado de secção quadrada, que se assemelha a uma torre sineira, apresentando, a preceder a cobertura, 1 janela de peito por alçado. A eixo e num corpo reentrante relativamente aos 2 corpos que o ladeiam (situados no mesmo plano), identifica-se o acesso principal ao interior do edifício: 3 arcos de volta perfeita, perfurados ao nível do piso térreo por vãos de verga recta, e preenchidos superiormente por material cerâmico disposto de forma padronal.
Ao corpo intermédio a O., flanqueado pelo acesso e pela torre, adossa-lhe um corpo rectangular que actua como pátio interior; localizado num plano avançado relativamente aos corpos descritos, podem observar-se alçados com abertura de arcaria em volta perfeita. Identifica-se ainda na parte posterior do corpo a E., caixa murária sobrelevada, revestida de material cerâmico, correspondente a um outro módulo do edifício.

Nos alçados laterais, destaca-se a integração de painéis escultóricos com representações em baixo e médio relevo de várias actividades rurais.

Com acesso através de átrio amplo, os espaços definidos pela volumetria exterior, articulam-se entre si no interior, através de corredores, e correspondem a diferentes zonas temáticas do Museu, em cuja componente ornamental se destacam obras de pintura e escultura aplicadas à arquitectura da autoria de Fred Kradolfer, D. Tomaz de Melo (Tom), Bernardo Marques, Carlos Botelho, Emmérico Nunes, José Rocha, Estrela Faria, Paulo Ferreira e Eduardo Anahory. (*)

Arquitecto Construtor Autor
ARQUITECTOS: António Maria Veloso Reis Camelo (1899 - 1985) e João Simões (n. 1908) / Arq. Jorge de Almeida Segurado ( 1898-1990 ), adaptação a museu anos 40;
ESCULTORES / PINTORES: Fred Kradolfer, D. Tomaz de Melo (Tom), Bernardo Marques, Carlos Botelho, Emmérico Nunes, José Rocha, Estrela Faria, Paulo Ferreira e Eduardo Anahory. (*)

Cronologia
1940 - inauguração do edifício integrado no conjunto construído para a Exposição do Mundo Português de 1940, integrando a Secção da Vida Popular, organizada pelo Secretariado da Propaganda Nacional, aquela Secção de Vida Popular possuía 3 pavilhões ligados entre si recorrendo ao folclore como veículo do nacionalismo português, considerando os brandos costumes e o Estado Novo como factores de paz e refúgio;

1941- concurso público lançado pela Comissão Administrativa do Plano de Obras da Praça do Império e da Zona Marginal de Belém, para adjudicação da empreitada de adaptação e modificação dos Pavilhões da Secção Etnográfica Metropolitana a Museu de Arte Popular, sendo lançadas sucessivas empreitadas (**); o acervo do museu, basicamente do séc. 20, baseia-se na recolha de peças para a Exposição de Arte Popular Portuguesa, apresentada em Genebra, em 1935;

1948 - inauguração do Museu após uma adaptação às novas exigências funcionais, com algumas alterações construtivas, em particular nas fundações e paredes exteriores, considerando 5 salas representando as regiões de Entre-Douro e Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Estremadura, Alentejo, Ribatejo e Algarve;

1970 (década de) - desse conjunto de edifícios, também designados por secção Etnográfica Metropolitana foram demolidos corpos a Poente onde se inseria a torre farol, que subsiste ainda hoje a SW, isolada;

1991 - por despacho datado de 12 de Dezembro foi determinada a abertura do processo de classificação do imóvel;

1995 - inauguração da Sala de Exposições Temporárias.

Tipologia
Arquitectura civil educativa e cultural, do Estado Novo - pavilhão de exposição / museu.

Características Particulares
De volumetria agarrada ao terreno possui uma gramática arquitectónica e decorativa de influência historicista e popular com grande unidade e simplicidade na composição das suas fachadas. O edifício do Museu constitui hoje um dos objectos memória e simbólicos da Exposição do Mundo Português de 1940, onde como Pavilhão Expositor de carácter efémero e cenográfico integrava a Secção de Vida Popular. As obras a que foi sujeito para museu, não alteraram o seu carácter.

Dados Técnicos
Paredes autoportantes

Materiais
Alvenaria mista ( tijolo na sua maioria ), reboco pintado, cantaria de calcário, estuque, ferro forjado

Intervenção Realizada
DGEMN:

1941/1948 - estudo de consolidação; substituição das fundações das paredes com 0.40 x 0.50m por alvenaria de pedra rija; no solo uso complementar de estacas betonadas com comprimento médio de 3.00 m: 2 estacas na periferia e no eixo da fundação das paredes, 4 estacas nos cunhais das paredes, 1 estaca intermédia no eixo da fundação das paredes com 5.00m de distância entre montantes e intervenção ao nível das paredes exteriores, para remodelação para a nova função;
1950, Janeiro - Reparação do tecto e telhados do claustro: levantamento da cobertura, substituição dos madeiramentos, arranjo dos beirados e tectos, nova cobertura em telha portuguesa, tectos de madeira e estafe e pintura a óleo das madeiras;

1985 - reparação da cobertura e dos esgotos na zona denominada dos claustros;

1995 - obras de recuperação; inauguração de uma sala para exposições temporárias;

2000 / 2003 - Projecto de reabilitação - 1º fase ( MAP - salas das Beiras, Ribatejo, Estremadura e Alentejo ): demolição das esteiras, instalação da rede eléctrica, protecção de pinturas murais e do espólio museológico; renovação das coberturas; drenagem dos pavimentos térreos, drenagem periférica, pré-instalação de redes eléctricas e de detecção de segurança, reabilitação das instalações sanitárias; Aplicação de tijoleira, recuperação e tratamento de paredes; recuperação das carpintarias das escadas e galeria; Protecção de pinturas murais nas salas Algarve, Pátio, Trás-os-Montes e Entre-Douro e Minho; Acondicionamento e transporte das peças museológicas das Salas do Átrio, Trás-os-Montes, Entre- Douro e Minho para as Salas das Beiras e Alentejo; Recuperação de vãos interiores e exteriores ( portas e janelas); recuperação de gradeamentos ( exteriores ); Restauro de equipamento de expositores ( madeira, vidros ); colocação de todo o equipamento sanitário; colocação de estores interiores tipo sol-screen; pintura de paredes interiores; instalação de rede de segurança ( Incêndio e Introsão );

2004, Setembro - Projecto de Reabilitação - 2ª fase (Espaço da Recepção, Salas Entre-Douro e Minho, Trás-os-Montes, dos Carros e do Algarve): Reabilitação e recuperação das coberturas e suas estruturas correspondentes aos espaços da Recepção e das salas de Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes, Algarve e dos Carros, optando-se por painéis sandwich de estrutura semelhante à cobertura jà reabilitada, contemplando a execução de caleiras, o capeamento das empenas e dos muretes a chapa de zinco nº 12 com juntas agrafadas e a colocação de tubos de queda das águas pluviais e respectivos capitéis em cobre, com secção de 80 x 120mm, em cor natural, que se tornará acastanhada com o tempo, e mangas protectoras até à altura dos socos das fachadas; execução de escada interior em aço galvanizado, de acesso às coberturas pela Torre, e de 5 escadas exteriores de articulação e acesso entre as coberturas das diversas salas, do mesmo material; defenição das grelhas metálicas, alçapões, guarda pés e guardas de protecção laterais dos passadiços do Tipo 1 e 2, de visita aos plenos da cobertura, do projecto de estruturas; execução de uma rede de Iluminação e de detecção de incêndios junto à cobertura de apoio ao respectivo pleno ( em fase posterior será integrada uma 2º rede nos tectos falsos ); construção provisória de um túnel de acesso às respectivas instalações devidamente protegido; protecção dos frescos nas Salas da Recepção e do Algarve de modo semelhante ao executado na 1ª fase das obras; protecção do mobiliário fixo nas Salas de Recepção e Entre-Douro-e-Minho, de modo semelhante ao executado na 1ª fase das obras.


(*) Esta lista de pintores decoradores indicada pelo Ippar corresponde ao registo dos colaboradores da Exposição do Mundo Português em 1940, nos Pavilhões da Vida Popular. Essas foram decorações efémeras para um pavilhão temporário, e só alguns dos anteriores decoradores foram chamados na seguinte fase de obras que se iniciou em 1942 e se encerrou em 1948 com a inauguração do Museu de Arte Popular. D. Tomaz de Melo (Tom) orientou a equipa de pintores de 1947-48 em que participaram comprovadamente Carlos Botelho, Estrela Faria, Paulo Ferreira, Eduardo Anahory e o muito presente Manuel Lapa. Mas já não Fred Kradolfer, Bernardo Marques, Emmérico Nunes e José Rocha, tanto quanto agora se conheced. Este erro, que tem origem no volume comemorativo editado já em 1956 - Mundo Português. Imagens de uma Exposição Histórica, 1940 - foi muitas vezes repetido.
Essa mesma lista omite os escultores, que foram Barata Feyo e Henrique Moreira, em 1940, mais Júlio de Sousa em 1943-48, além da fonte decorativa com elefantes que foi desenhada por Cottineli Telmo em 1942, da junta de bois que aí permanece (projecto de 1943) e de 9 bonecos decorativos da autoria de Maria Keil, entretanto desaparecidos.

Sobre as esculturas decorativas encomendadas para o Museu de Arte Popular (1942-48)
ver,
Helena Elias, "A EMERGÊNCIA DE UM ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO: ARTE PÚBLICA E TRANSFORMAÇÕES URBANAS NA ZONA RIBEIRINHA DE
BELÉM", in On the W@terfront nº 6, sep. 2004, publicación online del Centre de Recerca Polis de la Universitat de Barcelona - http://www.ub.edu/escult/Water/waterf_06/W06_03.pdf
(consultado em 2009.Junho.10)

Alexandre Pomar


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António Pinto Ribeiro sobre a política cultural em Portugal

(...) o Ministério da Cultura deve ser uma organização de gestão cultural diversificada que não pode ser colapsada por iniciativas paralelas como, por exemplo, as que têm sido tomadas pelo Ministério da Economia, para todos os efeitos um ministério por vezes contra a Cultura.
Do mesmo modo que a conservação do património (é sempre mais correcto designar como herança cultural) não se pode reduzir à conservação dos castelos ou a declarações em abstracto. No caso concreto, um exemplo da conservação da herança cultural será a conservação e activação concreta do Museu de Arte Popular.

Excerto do artigo de opinião Cultura e governação de António Pinto Ribeiro no Público de Hoje.


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A tentação pós-ditatorial de reescrever o passado...

... ou a raiva serôdia sobre o Museu de Arte Popular

(...)

Ainda que a ditadura salazarista e o seu estertor marcelista possam servir de caução às perversidades que hoje impunemente se assistem no nosso regime democrático, Portugal existiu antes do 25 de Abril de 1974 e, ao contrário do que determinam os manuais escolares, o nosso País não foi só uma revista do Parque Mayer dedicada a Fátima, ao futebol e ao fado, ou mesmo somente um quotidiano de pides a perseguir revolucionários. Portugal também existiu para além da guerra colonial e da emigração em massa. Existiam jovens, existia criatividade e, apesar das dificuldades e do risco, havia confronto de ideias. Em particular, durante a Segunda Grande Guerra, o nosso País viveu um período artístico marcante e de expressão internacional. Não isento de críticas e contradições, é certo. Com injustiças e perseguições, também não é menos verdadeiro, mas, ao contrário de hoje, com uma intensa produção artística e cultural apoiada pelo Estado. Mesmo agora não é possível compreender o modernismo em Portugal, o surgimento de correntes de ruptura e de inovação artística que se rebelaram contra os padrões hegemónicos da estética da ditadura se não conhecermos a produção artística e cultural do “Estado Novo”, se não conhecermos as suas escolas, os seus mestres e, sobretudo, as suas obras.

Vem esta reflexão a propósito da resolução serôdia do Conselho de Ministros, do passado dia 7 de Maio, de querer reconverter o Museu de Arte Popular, em Lisboa, em Belém junto ao Padrão dos Descobrimentos, no denominado Museu da Língua. Insurgimo-nos não contra esta iniciativa - venha daí o museu da nossa tão maltratada Língua! – mas sim contra essa absurda decisão de separar o espólio dedicado às artes e ofícios portuguesas do edifício que lhe foi especialmente dedicado, o único que restou, da célebre do da Exposição do Mundo Português de 1940. Para lá do testemunho arquitectónico de uma época e de uma tipologia de conceitos artísticos que nos ajudam a compreender a História, o edifício desde que foi encerrado em 2004 conserva ainda no seu interior um conjunto vasto de pinturas murais de Thomaz de Melo (Tom) e de vários outros artistas plásticos que coordenou, como Carlos Botelho, Eduardo Anahory, Estrela Faria, Paulo Ferreira e os escultores Barata Feyo e Henrique Moreira.

Voluntária, ou talvez não, com esta atitude o governo da república impõe através dos terrenos da museologia uma outra “nova” Política do Espírito condenável a todos os títulos, não só porque se trata de uma grosseira tentativa de querer reescrever a História, ao dar o triste exemplo aos cidadãos da desqualificação e abandono de uma parte do rico património cultural e artístico português e do apagamento de um modelo de memória vernacular e rural, mas, sobretudo, pela antinomia arrogante de querer impor aos vindouros que Portugal não existiu numa boa parte do século XX.

Artigo de Miguel Bandeira, Professor na Universidade do Minho, publicado no Jornal da Associação Académica da Universidade do Minho (20 de Maio de 2009). Ler na íntegra.


Pintura mural (certamente) de Eduardo Anahory (sala de Trás-os-Montes).

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Depoimento de Sérgio Lira

Tenho acompanhado com alguma distância o processo relativo ao Museu de Arte Popular com uma (ingénua?) esperança de que alguém de entre as esferas do "poder" tivesse finalmente senso e, melhor que isso, fizesse os seus pares terem-no também. Parece que era, de facto, uma esperança insensata. Este processo surge ao olhos do menos avisado ou do menos atento dos cidadãos como um conjunto imenso de despropósitos, de decisões incoerentes, de manobras de gabinete pouco claras ou pouco explicadas... aos olhos do mais atento começa a ser absolutamente impossível continuar a tentar acreditar na boa-fé e na valia das decisões que nos vão sendo dadas a conhecer. Por isso me permito enviar este e.mail, suportando a causa de tentar impedir a destruição daquela unidade museológica.

O Museu de Arte Popular foi um dos meus objectos de estudo aquando da tese e doutoramento que realizei na Universidade de Leicester, sob o título "Museums and Temporary Exhibitions as Means of Propaganda: the Portuguese case during the Estado Novo" [http://www2.ufp.pt/~slira/phdintro.htm]. A decisão de usar o Museu de Arte Popular como um dos casos em análise foi talvez das mais fáceis, no processo de escolha dos casos para esse trabalho. De facto, o Museu de Arte Popular herdava directamente o espólio material e simbólico do Pavilhão da Vida Popular e era, por isso, de superior interesse em termos de análise. Acresce que a sua manutenção num estado de imobilismo quase total ao longo de mais de meio século o transformava num delicioso (perdoe-se a expressão) objecto de estudo. Além disso, a relação umbilical do Museu de Arte Popular com o SNI apontavam-no como um dos pólos excepcionais de estudo da propaganda ideológica do Estado Novo. Outro fenómeno então observado, e que me pareceu relevante, prende-se com o número de visitantes que esta unidade museológica recebia: nos anos 1960 este museu registou números anuais de visitantes portugueses entre os mais de 10.000 e picos de quase 30.000; os totais, contando com visitantes estrangeiros, atingiam 35.000 a 40.000. Interessante de observar que em 1974 o número total de visitantes nacionais foi de cerca de 45.000, tendo o total absoluto ultrapassado os 70.000. Mais interessante ainda será verificar que 77% dos visitantes deste ano revolucionário se concentraram em Maio e que uma esmagadora maioria destas vistas (ao contrário dos anos anteriores) foi grátis. Ou seja, sem argumentar e sem concluir, no ano da revolução, no mês seguinte à revolução, o povo visitou como nunca um dos baluartes da propaganda do Estado Novo. Interessante, no mínimo. Irritante, talvez.

A zona urbana em que o Museu se encontra é outro dos aspectos que, julgo, merece alguma atenção: zona degradada aquando da decisão de lançar a grande exposição de 1940, passou a área privilegiada e de impacto propagandístico desde então. Não terá certamente sido por acaso (ou estarei a ver "no escuro"...) que o CCB foi edificado na exacta localização dos Pavilhões dos "Portugueses no Mundo" (E se mais mundo houvera lá chegara) e "Portugal 1940"  onde o Estado Novo realizou a elegia da cultura dita da portugalidade (O nome destes e doutros tornou maior o nome de Portugal) e das suas próprias realizações, numa intoxicante campanha de insuflação das realizações financeiras dos anos 1930. Neste, eventualmente mais que em qualquer outro pavilhão, o regime pretendia apresentar-se na sua máxima potência de propaganda, da fachada ao miolo. Actualmente o CCB ocupa esse espaço. Logo por detrás estavam as "aldeias portuguesas"  (que faziam o contraponto do Jardim Colonial, onde os nativos coloniais e os nativos da "província" se mostravam aos visitantes citadinos) e a passagem para o Pavilhão de Arte Popular, que culminava, na exibição da cultura material, o elogio da portugalidade original. Actualmente, do CCB pode avistar-se o Museu de Arte Popular... mas, e julgo que me perdoarão a ironia, que visão desalentada! aquela mole de pedra, qual templo "grego" coevo de um período em que uma certa "mania das grandezas" parecia encher de vento alguns peitos nacionais... fica tão mal acompanhado pelo miúdo, amesquinhado e memorial-de-outros-tempos Museu de Arte Popular; não rimam, não lhe fica nada bem. Parece perceber-se que a usurpação realizada pelo CCB do espaço urbano dignificado (ao menos em memória subliminar) pela acção de 1940 não ficará completa sem que se arrase definitivamente com o resto da memória (essa arquitectónica e física) incómoda que é o Museu. Mas isto é puro exercício interpretativo, quem sabe desprovido de qualquer razão.

O que não é interpretação, o que é facto puro e duro, é que o Museu de Arte Popular é um elemento essencial da memória museológica; é que as suas colecções tem valências intrínsecas e epocais de valor indubitável em termos museológicos e históricos; é que a sua destruição é uma perda irreparável. Compreendo que haja interesses em fazer desaparecer esse Museu, ganhando o seu espaço, permitindo outros projectos. Mas a coincidência desses dois desígnios é que me parece incompatível com a ética republicana que adoptámos há 35 anos; a estranha obsessão por aquele "lugar" é que me parece perigosamente próxima da forma de actuar de 1940... se sim, então a propaganda ideológica do Estado Novo, ali tão visível, ficou-nos (aos nossos governantes) mesmo debaixo da pele, foi mesmo (demasiadamente) eficaz!!!






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Editorial de Luís Raposo, presidente do ICOM-Portugal

O ‘caso’ mais recente do Museu de Arte Popular é o único sobre o qual ainda não nos pronunciámos formalmente – o que faremos na primeira oportunidade. Mas devemos desde já adiantar que entendemos constituir um erro museológico crasso desmerecer ou, pior ainda, pretender ‘apagar’ essa colecção e esse conceito de museu, sem dúvida datado e porventura incómodo para algumas elites actuais, mas incontornável em termos históricos e até cativante para muitos apreciadores dos nossos museus. Constitui, por outro lado, uma violência inqualificável, porventura mesmo um crime patrimonial, destruir ou impedir a fruição plena do edifício do museu, tanto nas suas volumetrias exteriores, como no seu interior, povoado este por frescos monumentais, alguns de grande qualidade artística. Tal como quanto ao Museu dos Coches, trata-se de mais um caso em que ‘conteúdo’ e ‘contentor’ constituem um todo coerente e indissociável, que importa preservar a todo custo.

Excerto do editorial de Luís Raposo, presidente da direcção do ICOM Portugal, no Boletim Informativo do ICOM.PT de Junho-Agosto 2009. Ver texto na Íntegra.



Minho, Caixa de Brinquedos de Portugal, pintura mural de Tom (Tomás de Mello) e Manuel Lapa, no Museu de Arte Popular, 1948. Fotógrafo: José Pessoa, 2008 © IMC / MC
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Museu de Arte Popular na Time Out desta semana


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Museu de Arte Popular na L+Arte deste mês



(o artigo continua no número de Junho de 2009 da revista L+Arte).


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