museu de arte popular

Avatarfechado em Belém mas aberto aqui

António Pinto Ribeiro sobre a política cultural em Portugal

(...) o Ministério da Cultura deve ser uma organização de gestão cultural diversificada que não pode ser colapsada por iniciativas paralelas como, por exemplo, as que têm sido tomadas pelo Ministério da Economia, para todos os efeitos um ministério por vezes contra a Cultura.
Do mesmo modo que a conservação do património (é sempre mais correcto designar como herança cultural) não se pode reduzir à conservação dos castelos ou a declarações em abstracto. No caso concreto, um exemplo da conservação da herança cultural será a conservação e activação concreta do Museu de Arte Popular.

Excerto do artigo de opinião Cultura e governação de António Pinto Ribeiro no Público de Hoje.


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A tentação pós-ditatorial de reescrever o passado...

... ou a raiva serôdia sobre o Museu de Arte Popular

(...)

Ainda que a ditadura salazarista e o seu estertor marcelista possam servir de caução às perversidades que hoje impunemente se assistem no nosso regime democrático, Portugal existiu antes do 25 de Abril de 1974 e, ao contrário do que determinam os manuais escolares, o nosso País não foi só uma revista do Parque Mayer dedicada a Fátima, ao futebol e ao fado, ou mesmo somente um quotidiano de pides a perseguir revolucionários. Portugal também existiu para além da guerra colonial e da emigração em massa. Existiam jovens, existia criatividade e, apesar das dificuldades e do risco, havia confronto de ideias. Em particular, durante a Segunda Grande Guerra, o nosso País viveu um período artístico marcante e de expressão internacional. Não isento de críticas e contradições, é certo. Com injustiças e perseguições, também não é menos verdadeiro, mas, ao contrário de hoje, com uma intensa produção artística e cultural apoiada pelo Estado. Mesmo agora não é possível compreender o modernismo em Portugal, o surgimento de correntes de ruptura e de inovação artística que se rebelaram contra os padrões hegemónicos da estética da ditadura se não conhecermos a produção artística e cultural do “Estado Novo”, se não conhecermos as suas escolas, os seus mestres e, sobretudo, as suas obras.

Vem esta reflexão a propósito da resolução serôdia do Conselho de Ministros, do passado dia 7 de Maio, de querer reconverter o Museu de Arte Popular, em Lisboa, em Belém junto ao Padrão dos Descobrimentos, no denominado Museu da Língua. Insurgimo-nos não contra esta iniciativa - venha daí o museu da nossa tão maltratada Língua! – mas sim contra essa absurda decisão de separar o espólio dedicado às artes e ofícios portuguesas do edifício que lhe foi especialmente dedicado, o único que restou, da célebre do da Exposição do Mundo Português de 1940. Para lá do testemunho arquitectónico de uma época e de uma tipologia de conceitos artísticos que nos ajudam a compreender a História, o edifício desde que foi encerrado em 2004 conserva ainda no seu interior um conjunto vasto de pinturas murais de Thomaz de Melo (Tom) e de vários outros artistas plásticos que coordenou, como Carlos Botelho, Eduardo Anahory, Estrela Faria, Paulo Ferreira e os escultores Barata Feyo e Henrique Moreira.

Voluntária, ou talvez não, com esta atitude o governo da república impõe através dos terrenos da museologia uma outra “nova” Política do Espírito condenável a todos os títulos, não só porque se trata de uma grosseira tentativa de querer reescrever a História, ao dar o triste exemplo aos cidadãos da desqualificação e abandono de uma parte do rico património cultural e artístico português e do apagamento de um modelo de memória vernacular e rural, mas, sobretudo, pela antinomia arrogante de querer impor aos vindouros que Portugal não existiu numa boa parte do século XX.

Artigo de Miguel Bandeira, Professor na Universidade do Minho, publicado no Jornal da Associação Académica da Universidade do Minho (20 de Maio de 2009). Ler na íntegra.


Pintura mural (certamente) de Eduardo Anahory (sala de Trás-os-Montes).

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Depoimento de Sérgio Lira

Tenho acompanhado com alguma distância o processo relativo ao Museu de Arte Popular com uma (ingénua?) esperança de que alguém de entre as esferas do "poder" tivesse finalmente senso e, melhor que isso, fizesse os seus pares terem-no também. Parece que era, de facto, uma esperança insensata. Este processo surge ao olhos do menos avisado ou do menos atento dos cidadãos como um conjunto imenso de despropósitos, de decisões incoerentes, de manobras de gabinete pouco claras ou pouco explicadas... aos olhos do mais atento começa a ser absolutamente impossível continuar a tentar acreditar na boa-fé e na valia das decisões que nos vão sendo dadas a conhecer. Por isso me permito enviar este e.mail, suportando a causa de tentar impedir a destruição daquela unidade museológica.

O Museu de Arte Popular foi um dos meus objectos de estudo aquando da tese e doutoramento que realizei na Universidade de Leicester, sob o título "Museums and Temporary Exhibitions as Means of Propaganda: the Portuguese case during the Estado Novo" [http://www2.ufp.pt/~slira/phdintro.htm]. A decisão de usar o Museu de Arte Popular como um dos casos em análise foi talvez das mais fáceis, no processo de escolha dos casos para esse trabalho. De facto, o Museu de Arte Popular herdava directamente o espólio material e simbólico do Pavilhão da Vida Popular e era, por isso, de superior interesse em termos de análise. Acresce que a sua manutenção num estado de imobilismo quase total ao longo de mais de meio século o transformava num delicioso (perdoe-se a expressão) objecto de estudo. Além disso, a relação umbilical do Museu de Arte Popular com o SNI apontavam-no como um dos pólos excepcionais de estudo da propaganda ideológica do Estado Novo. Outro fenómeno então observado, e que me pareceu relevante, prende-se com o número de visitantes que esta unidade museológica recebia: nos anos 1960 este museu registou números anuais de visitantes portugueses entre os mais de 10.000 e picos de quase 30.000; os totais, contando com visitantes estrangeiros, atingiam 35.000 a 40.000. Interessante de observar que em 1974 o número total de visitantes nacionais foi de cerca de 45.000, tendo o total absoluto ultrapassado os 70.000. Mais interessante ainda será verificar que 77% dos visitantes deste ano revolucionário se concentraram em Maio e que uma esmagadora maioria destas vistas (ao contrário dos anos anteriores) foi grátis. Ou seja, sem argumentar e sem concluir, no ano da revolução, no mês seguinte à revolução, o povo visitou como nunca um dos baluartes da propaganda do Estado Novo. Interessante, no mínimo. Irritante, talvez.

A zona urbana em que o Museu se encontra é outro dos aspectos que, julgo, merece alguma atenção: zona degradada aquando da decisão de lançar a grande exposição de 1940, passou a área privilegiada e de impacto propagandístico desde então. Não terá certamente sido por acaso (ou estarei a ver "no escuro"...) que o CCB foi edificado na exacta localização dos Pavilhões dos "Portugueses no Mundo" (E se mais mundo houvera lá chegara) e "Portugal 1940"  onde o Estado Novo realizou a elegia da cultura dita da portugalidade (O nome destes e doutros tornou maior o nome de Portugal) e das suas próprias realizações, numa intoxicante campanha de insuflação das realizações financeiras dos anos 1930. Neste, eventualmente mais que em qualquer outro pavilhão, o regime pretendia apresentar-se na sua máxima potência de propaganda, da fachada ao miolo. Actualmente o CCB ocupa esse espaço. Logo por detrás estavam as "aldeias portuguesas"  (que faziam o contraponto do Jardim Colonial, onde os nativos coloniais e os nativos da "província" se mostravam aos visitantes citadinos) e a passagem para o Pavilhão de Arte Popular, que culminava, na exibição da cultura material, o elogio da portugalidade original. Actualmente, do CCB pode avistar-se o Museu de Arte Popular... mas, e julgo que me perdoarão a ironia, que visão desalentada! aquela mole de pedra, qual templo "grego" coevo de um período em que uma certa "mania das grandezas" parecia encher de vento alguns peitos nacionais... fica tão mal acompanhado pelo miúdo, amesquinhado e memorial-de-outros-tempos Museu de Arte Popular; não rimam, não lhe fica nada bem. Parece perceber-se que a usurpação realizada pelo CCB do espaço urbano dignificado (ao menos em memória subliminar) pela acção de 1940 não ficará completa sem que se arrase definitivamente com o resto da memória (essa arquitectónica e física) incómoda que é o Museu. Mas isto é puro exercício interpretativo, quem sabe desprovido de qualquer razão.

O que não é interpretação, o que é facto puro e duro, é que o Museu de Arte Popular é um elemento essencial da memória museológica; é que as suas colecções tem valências intrínsecas e epocais de valor indubitável em termos museológicos e históricos; é que a sua destruição é uma perda irreparável. Compreendo que haja interesses em fazer desaparecer esse Museu, ganhando o seu espaço, permitindo outros projectos. Mas a coincidência desses dois desígnios é que me parece incompatível com a ética republicana que adoptámos há 35 anos; a estranha obsessão por aquele "lugar" é que me parece perigosamente próxima da forma de actuar de 1940... se sim, então a propaganda ideológica do Estado Novo, ali tão visível, ficou-nos (aos nossos governantes) mesmo debaixo da pele, foi mesmo (demasiadamente) eficaz!!!






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Editorial de Luís Raposo, presidente do ICOM-Portugal

O ‘caso’ mais recente do Museu de Arte Popular é o único sobre o qual ainda não nos pronunciámos formalmente – o que faremos na primeira oportunidade. Mas devemos desde já adiantar que entendemos constituir um erro museológico crasso desmerecer ou, pior ainda, pretender ‘apagar’ essa colecção e esse conceito de museu, sem dúvida datado e porventura incómodo para algumas elites actuais, mas incontornável em termos históricos e até cativante para muitos apreciadores dos nossos museus. Constitui, por outro lado, uma violência inqualificável, porventura mesmo um crime patrimonial, destruir ou impedir a fruição plena do edifício do museu, tanto nas suas volumetrias exteriores, como no seu interior, povoado este por frescos monumentais, alguns de grande qualidade artística. Tal como quanto ao Museu dos Coches, trata-se de mais um caso em que ‘conteúdo’ e ‘contentor’ constituem um todo coerente e indissociável, que importa preservar a todo custo.

Excerto do editorial de Luís Raposo, presidente da direcção do ICOM Portugal, no Boletim Informativo do ICOM.PT de Junho-Agosto 2009. Ver texto na Íntegra.



Minho, Caixa de Brinquedos de Portugal, pintura mural de Tom (Tomás de Mello) e Manuel Lapa, no Museu de Arte Popular, 1948. Fotógrafo: José Pessoa, 2008 © IMC / MC
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Museu de Arte Popular na Time Out desta semana


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Museu de Arte Popular na L+Arte deste mês



(o artigo continua no número de Junho de 2009 da revista L+Arte).


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Depoimento de João Appleton

Sou céptico por natureza, ou talvez por formação, que os engenheiros são dados a isso, a acreditarem apenas nos factos comprovados e cientificamente comprovados; por isso, nunca me deixo empolgar, nem desfaleço com as notícias que se vão lendo, vendo ou ouvindo na comunicação social, para mim a opinião pública raramente coincide com a opinião publicada e, mesmo quando parece formar-se uma opinião colectiva reservo a minha, não vá o diabo tecê-las.

Mas, e apesar disso, a constância com que se vão debitando e remoendo notícias das mais variadas origens acerca do Museu de Arte Popular, mesmo o meu cepticismo vacila, alguma coisa anda no ar, embora de contornos imprecisos, como é de bom tom num país em que a franqueza nunca fez fortuna.

Afinal, há uns quantos anos fui tirado do meu sossego com um convite para colaborar na reabilitação do edifício do Museu, naturalmente na sua componente estrutural, de coberturas e de drenagem, uma vez que aqui estavam os problemas que afligiam o Museu, lhe quebravam o ânimo, que um museu, mesmo de arte popular, não se fez para estar à chuva nem para ter os pés dentro de água.

O convite veio, julgo a esta distância, do então Instituto Português de Museus, por interposta e entretanto extinta Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, e a ideia inicial seria a de se refazer inteiramente a cobertura,
estrutura incluída e mais o amaldiçoado fibrocimento que o amianto condenara; como não sei fazer arquitectura, e nem mesmo tento arremedá-la, requeri presença de arquitecto que entendia essencial para diferentes desenhos e escolhas que
a minha leveza de simples engenheiro não me consentia, daí a entrada do Victor Mestre em quem sempre me apoiei, então ainda bem-quisto na ex-DGEMN.

Para surpresa de alguns, admiti-o então e agora também, propus que se mantivesse a estrutura de cobertura, de madeira e aço que se apresentava escorreita, aqui e ali adoentada, mas não nas salas principais, apenas carecendo de alguns tratamentos e carinhos, como é normal em edifícios de meia idade; então, como agora, pareceu-me importante conservar sinais bastantes da construção original, efémera enquanto da Exposição do Mundo Português, com perenidade consentida com a promoção a Museu.

Não me moveu qualquer espécie de saudosismo, que o Estado Novo nunca me seduziu, mas tão somente a preocupação com a leitura integral e correcta de um edifício quase monumento, exemplar escasso dum momento histórico que não devemos esquecer, gostando ou não dele; além disso a estrutura, repito, estava generalizadamente em estado razoável de conservação, provavelmente já resultado da transformação em museu.

Deu trabalho, que é sempre mais fácil demolir e fazer de novo, reparar e reforçar o existente é trabalho duplo ou triplo e o trabalho correu devagar, em fases e sub-fases, ao longo de anos, mudando empreiteiros e soluções; no final, que é quase como tudo está agora, ficou o edifício renovado na cobertura, bem drenado e estruturalmente competente, preparado para mais umas décadas de vida útil.

O espólio do Museu andou em bolandas, mas sempre na esperança de voltar a casa e aquela é a casa e a cara do Museu de Arte Popular; não me aborrece a Língua que também me pertence, mas ali o seu museu, porquê? Entre tantos edifícios públicos mais ou menos vazios e abandonados logo aquele que tem destino certo, que na sua simplicidade quase ingénua, nos materiais e nos elementos decorativos, tinha que ser para as Rosas Ramalhos que sempre tivemos.

Bem vistas as coisas começo a sentir-me indignado com as notícias que talvez nem sejam verdadeiras, podem ser apenas boatos insidiosos próprios de campanhas eleitorais e a minha indignação, perdoem-na, é dupla, pois como cidadão quero o Museu de Arte Popular e quero-o ali, onde trabalhei para lhe viabilizar a velhice.

Depois da derrocada de parte do telhado da sala do Algarve a 19 de Outubro de 1999, foi solicitado ao engenheiro João Appleton em Fevereiro de 2000 pelo então IPM um estudo para uma nova cobertura. O engenheiro João Appleton, com grande experiência em obras de reabilitação aconselhou a que se optasse por um trabalho de reabilitação, uma solução menos sofisticada mas com mais compatibilidade com a estruturas das paredes e favorável para o edifício no seu todo, garantindo estabilidade e durabilidade. 



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