




Há dois atrás, a passear pela Feira da Ladra encontrei estas fotografias. Tudo indica que sejam de uma exposição organizada pelo SNI no Brasil, ainda antes da Exposição do Mundo Português de 1940.
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fechado em Belém mas aberto aqui





O Museu da Língua Portuguesa vai, afinal, ficar mesmo instalado no edifício que acolheu o Museu de Arte Popular, em Belém, e a sua instalação vai ficar a cargo da sociedade Frente Tejo, S.A.A decisão foi hoje tomada em Conselho de Ministros, que a justifica dizendo que a intervenção visa “promover a requalificação do edifício do antigo Museu de Arte Popular, situado na Avenida de Brasília, reconvertendo aquele que foi originalmente o pavilhão da Vida Popular da Exposição do Mundo Português num inovador e contemporâneo espaço multimédia e centro privilegiado de promoção da língua portuguesa”.A nova instituição, com a localização em Belém atrás referida, foi lançada pela anterior ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, em 2006, então com a designação de Museu do Mar e da Língua Portuguesa, num projecto assumidamente inspirado no museu congénere existente em S. Paulo.O actual ministro José António Pinto Ribeiro, pouco tempo depois de tomar posse do cargo, confirmou a sua intenção de avançar com o projecto, mas, em Maio do ano passado, admitiu a mudança de localização. Uma hipótese que então colocou em cima da mesa foi a estação ferroviária do Rossio, no centro de Lisboa, invocando, precisamente, o caso do museu brasileiro, que está instalado na Estação da Luz, um interface de metro e comboio.Mais tarde, Pinto Ribeiro viria a recuar para a primeira localização, que anunciou, por exemplo, na sua mais recente intervenção na Comissão Parlamentar de Cultura da Assembleia da República, no dia 8 de Abril, quando associou o Museu da Língua Portuguesa ao vasto plano de requalificação da zona de Belém, para onde está também projectado o novo Museu dos Coches, com projecto do arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha.Sérgio C. Andrade 07.05.2009 - 17h35
O tema desta crónica retoma um tema que já abordei, neste espaço da L+Arte mas também noutros espaços de comunicação. O caso é que, como recentemente disse (Câmara Clara de 14 de Dezembro) parece que o Museu de Arte Popular (MAP) tem sete foles, usando adequado adágio da fala popular…
Depois da ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, ter decidido fechá-lo definitivamente, fazer instalar as suas colecções no Museu Nacional de Etnologia (MNE) e decretar que, no edifício dos anos de 1940, se instalaria o Museu da Língua Portuguesa (misturando-a com o mar, coisa que, confesso, nunca consegui fixar, mesmo em mero título), a certidão de morte estava proclamada. Mas poderá não ser assim: a ministra saiu sem que, juridicamente, o MAP tenha sido extinto. O actual Ministro creio que nunca falou sobre o assunto e, apesar da direcção do Instituto Português e da Conservação (IMC), me garantirem que nenhuma revisão é esperável, resolvi renovar os meus votos em sentido contrário. Por duas ordens de razões: uma do domínio dos princípios, outra porque poderá haver uma interessante solução.
Recapitulando os princípios: o MAP foi uma tardia criação do Estado Novo que, mais do que a ideologia do regime (só então em processo de cristalização improdutiva) manifesta a ideologia e a estética do modernismo na abordagens das heranças populares, valorizando os seus casticismos, inventariados desde os finais do século XIX. O inventário e a valorização dos quotidianos de trabalho e festa não ignorou metodologias mais ou menos rigorosas da etnologia, mas submeteu-as ao gosto pelos objectos únicos, característico dos procedimentos dos museus de belas-artes. Esta hibridez de actuação informa a própria arquitectura do edifício – visando recriar motivos das casas populares do sul de Portugal, mesclando-os com a erudição modernista da fachada principal – bem como a sua importante decoração interior, realizada pelo escol dos pintores e ilustradores dos anos de 1930-40.
No conjunto dos factos apontados radica a impossibilidade de reconversão do edifício a outras funções: ele nasceu como Pavilhão da Arte Popular na Exposição do Mundo Português (1940) e quando foi transformado em Museu assumiu essa marca de origem, fazendo dela o mote da museografia modernista do arquitecto Jorge Segurado. Não podendo ser outra coisa senão o que sempre foi e não podendo ser alterado por questões sérias de salvaguarda patrimonial (é o único edifício sobrevivente do conjunto expositivo de 1940 e possui, in situ, uma rara colecção de pinturas de escala considerável), só a modernização do MAP, sobre a conservação do edifício, é saída aceitável e não a sua apropriação para usos desadequados que invejam a espectacularidade do sítio. Se a decisão for correcta, foi positivo que as colecções tenham sido recolhidas no MNE onde, finalmente, estão a ser estudadas. Deverão retornar depois à casa-mãe, na figura institucional de núcleo museológico do MNE que assegurará a sua programação, eventualmente com a entrada de peças do seu próprio acervo e a assunção plena do passado, através da narrativa expositiva das razões de ser do MAP , no contexto do Estado Novo e das heranças da primeira fase da Etnologia em Portugal.
As razões absolutamente constrangentes para a salvaguarda do MAP não devem ignorar que, ao contrário de vários ministros e de algumas pessoas que, militantemente, pretendem apagar os vestígios da cultura do Estado Novo, há muita gente que tem saudades do Museu, considerando o seu papel afectivo na salvaguarda de memórias e de patrimónios artesanais. Entre os amigos do MAP, quero evocar aqui Catarina Portas, empresária que, nos últimos anos, tem desenvolvido um trabalho meritório em prol da cultura portuguesa, quer nos domínios dos artesanatos domésticos, quer de indústrias extintas que inventaram e implantaram marcas portuguesas. Diversas vezes, a Catarina me abordou, cheia de vontade de fazer alguma coisa, na sua loja de Lisboa, para questionar o desaparecimento do MAP. Mas, há dias, fui eu que avancei, propondo que exploremos a estreita brecha de possibilidades que permanece.
Neste momento, tanto o Ministro como a Secretária de Estado estão empenhados, positivamente, em reflectir sobre os caminhos possíveis para modernizar a gestão dos museus. Creio que pretendem utilizar a maior flexibilidade dos regimes da administração pública, mas também o quadro jurídico que será criado com a Lei sobre o Regime Geral dos Bens do Domínio Público que se encontra em discussão. Não é a altura de me deter sobre o projecto deste último Diploma que está a ser negativamente considerado pelas associações de defesa do património histórico, nomeadamente o ICOMOS. O que o Estado pretende é, à partida, positivo: assumir que não tem nem meios nem capacidade para gerir todo o património público e que, nesse quadro, deve pensar soluções diversas, entre elas a concessão a privados.
Correndo o risco de escandalizar muitos amigos, afirmo que poderá estar aqui a solução para o MAP. Idealmente, considero que ele deve reabrir como núcleo do MNE e por este programado. Mas não podemos esquecer as dificuldades do próprio Museu, extensivas ao IMC que o tutela, nem – é preciso dizê-lo com clareza – o desamor que, em geral, o envolve. Ora há uma empresária, dedicada com sucesso e grande qualidade à promoção da cultura popular portuguesa, que receberia com agrado a concessão do MAP. Não o deseja para enriquecer, antes para salvara e valorizar os sentidos com que ele foi criado.
Pela minha parte, se o Ministro da Cultura quiser entender as potencialidades deste desafio, estou disponível para participar na sua concretização. Para salvar o MAP (o que exige amor e entusiasmo) e para testar, na prática, as desejadas alterações nos modelos de gestão dos museus em Portugal. Recordo o que todos os historiadores sabem: desde 1820, somos bastantes bons a fazer leis e péssimos a implementá-las. Há muito defendo que, pelo menos na Cultura, deveríamos começar por práticas inovadoras em situações concretas.

No Diário de Notícias de sábado passado, António Mega Ferreira resolveu responder à minha última crónica sobre o Museu de Arte Popular. Ele não gosta do edifício nem aprecia o conceito museológico do antigo MAP e por isso clama para que alguém tenha a coragem de o deitar abaixo. Uma provocação destas pede mais alguns argumentos, portanto.
A diferença fundamental entre as nossas visões é que Mega Ferreira olha para o passado e presente do MAP e eu, que também contemplo o que hoje lá (não) está, imagino o que poderia ser o seu futuro. Acredito que um Museu de Arte Popular não deve desaparecer, neste momento, e que, justamente este, nascido em peculiares circunstâncias, devidamente repensado, pode dar origem a explorações instigadoras e originais de várias temáticas.
O Museu possui uma colecção de arte popular portuguesa rara, que deveria ser enriquecida e poderia ser explorada tematicamente: da cerâmica à ourivesaria, passando pelos têxteis, existe trabalho bom e belo neste país. O seu estudo e a sua divulgação são hoje fundamentais para que estas artes não se percam e, pelo contrário, prosperem. Existe um mercado de nichos à sua espera, acredito eu que vou tendo alguma experiência nesta matéria.
Mas o artesanato português vive actualmente um momento crítico. A média etária dos artesãos portugueses é cada vez mais elevada, muitos estão a desaparecer sem passar a sua arte às gerações mais novas. Simultaneamente, assistimos ao eclodir de uma nova geração de designers e de um movimento conhecido como “new crafts”, no estrangeiro e também em Portugal, que se interessa por isto e pede este saber. Acredito que o MAP poderia ser esta plataforma de encontro e diálogo, entre uns e outros, fomentando estágios, transmissão e novas explorações.
O facto de o MAP ser um produto da “Política do Espírito” salazarista, um regime que muito doutrinou e fantasiou sobre a nacionalidade, é justamente, a meu ver, a melhor das provocações para querer descobrir mais sobre a relação de inspiração que, ao longo da história, alguns artistas mantiveram com o seu próprio país. Desde a busca do “pittoresco” que apaixonou a geração de Bordalo e Ramalho até aos nossos dias, essa inspiração continua visível e estimulante no trabalho de artistas como Joana Vasconcelos ou João Pedro Vale. E, neste caso, pode passar também muito adequadamente pelo explorar da obra de todo um conjunto de artistas que nos anos 30 e 40 do séc. XX por aí muito se passearam – falo de Sarah Afonso, Maria Keil, Almada Negreiros, Carlos Botelho, Bernardo Marques, Tom, Piló ou Paulo Ferreira.
No fundo, resume-se a isto: que relação queremos ter com as nossas coisas e o nosso país? Por mim, acho mais excitante poder visitar um museu original que não existe em mais lado nenhum do que ir rever uma colecção de arte moderna, como aquela que alberga o CCB que Mega Ferreira dirige, tão similar a tantas outras pelo mundo fora.
O Museu de Arte Popular, em Belém, está fechado desde 2003. Um destes dias, visitei-o. Entrando por uma porta aberta pelo descuido da meia dúzia de homens das obras que por lá se entretiam mais do que trabalhavam, não tive que pagar bilhete, apenas não fazer barulho. O que vi e fotografei, chocou-me: o chão era um areal soltando poeira sobre as paredes pintadas de frescos vários (havia uns plásticos pendurados nalgumas paredes, de facto, mas esqueceram-se de lhes prender o fundo). O resto lá continuava: a belíssima grade de ferro forjado no primeiro andar, a entrada original com o seu mapa do país em alto relevo, nas paredes o que resta das colaborações de artistas como Manuel Lapa, Tom, Eduardo Anahory, Carlos Botelho, Estrela Faria e Paulo Ferreira com as quais o Museu foi inaugurado a 15 de Julho de 1948. E lixo, muito lixo, jornais dos anos 60 e papéis velhos em resmas pelos cantos. Desolação e abandono absolutos.
Isto que eu vi, um edifício histórico abandonado ao deus dará, sem estima nem sensibilidade, foi o que o Estado do meu país fez ao museu onde se guardava a melhor colecção portuguesa de arte popular. Este conteúdo existe, no entanto, está hoje encafuado nas reservas do Museu de Etnologia para que ninguém o possa ver. Tudo isto aconteceu quando, em 2006, a então Ministra da Cultura de triste memória proferiu a lapidar frase “Os museus nascem, vivem e morrem”, assassinando assim o MAP. Quando o novo Ministro da Cultura tomou posse, alguns de nós suspirámos de alívio, sobretudo quando o ouvimos criticar várias das opções da sua antecessora, incluindo o Museu do Mar da Lígua Portuguesa a instalar no MAP. Mas, na sua mais recente entrevista a este jornal, constatámos que afinal tudo voltou à mesma triste sina. Agora, o Museu da Língua já não vai para o Norte do país, é outra vez para ficar em Belém, no edifício do MAP, pois claro.
E o edifício do MAP é apropriado para o museu da Língua? Não, porque é pequeno. Não, porque a maior parte das suas paredes estão cobertas por elementos e pinturas decorativas de vários artistas portugueses. Não, porque as janelas são muitas e enchem o seu espaço de luz. Como sabemos, a ideia do Museu da Língua não é original, trata-se apenas de uma cópia do museu com o mesmo nome que uns governantes portugueses viram em São Paulo e acharam “giro”. Baseado em novas tecnologias, com uma profusão de ecrãs e muita interactividade. Calha aqui? Não, não calha nada. Implica, como qualquer pessoa de bom senso poderá depreender in loco, a destruição quase total deste edifício, o único que restou, embora remodelado, da Exposição do Mundo Português. Acarreta, para mais, a morte de um museu único no seu género, com uma história sobre a qual há muito para reflectir - a construção da imagem de um país por um regime, simultaneamente falsa e verdadeira, e tão fascinante de observar e dissecar hoje ainda.
Não haverá nesta cidade e no seu porto outra hipótesa para albergar o Museu da Língua? Não haverá, neste país, coragem para uma recuperação exemplar e modernamente interpretada do Museu de Arte Popular?
O projecto anunciado para o velho museu de "arte popular" em Belém levanta - até pelo que não foi esclarecido - diversas interrogações. Aqui se deixam cinco.
Primeiro. Associar num equipamento museológico a língua portuguesa e os descobrimentos faz sentido? E, se faz, a partir de que pressupostos culturais, científicos e ideológicos? Tata-se de uma associação virtuosa ou, pelo contrário, acabará a fazer prevalecer - com incontornável significado cultural e político - a visão de um dos aspectos sobre o outro? Naturalmente que a divulgação da língua portuguesa pelo mundo está intimamente associada aos descobrimentos, mas os descobrimentos não têm de ser abordados para além da questão da língua e a língua não tem de ser abordada para além dos descobrimentos?
Segundo. O tratamento museológico de um fenómeno linguístico tem hoje exigências (simultaneamente permitidas e exigidas pela evolução tecnológica) de que, segundo parece, as experiências virtuais de São Paulo são um estimulante exemplo. O edifício de Belém adequa-se minimamente a estas exigências? Mais importante: a musealização dos descobrimentos tem características, exigências e possibilidades completamente diferentes: é compatível, será enriquecedora e coerente a junção das duas?
Terceiro. O acervo existente (ainda?...) do antigo Museu de Arte Popular é contraditório no seu valor e significado, mas, para além exactamente da globalidade, de que já se falará, contém peças que, em quantidade e qualidade, são hoje únicas. A decisão tomada parece prever a sua disseminação por diversas instituições, algumas que poderão com coerência e rigor acolhê-las (caso do Museu de Etnologia). Mas não se previu, segundo parece, nenhuma solução para manter criticamente coerente um acervo que o é? Dispersá--lo peça a peça, à luz não se sabe bem de que critérios, não é evidentemente a liquidação de um património conceptual?
Quarto. O próprio museu era, como tem sido sublinhado, na sua globalidade - concepção, colecção, edifício - um elemento demonstrativo de uma visão cultural, ideológica e política do povo e da sua arte, própria do salazarismo. Que fica dessa relevante memória?
Quinta e insidiosa pergunta: depois da zona oriental e da Expo de Guterres, o Governo PS resolve acolher-se novamente aos convencionais faustos do poder da zona de Belém?...
No último fim de semana, esquecendo as misérias e humilhações orçamentais de todo o ano, fez-se festa nos museus. Noite fora, abriram-se as portas e mostraram-se colecções, bebeu-se e dançou-se. Ainda bem. Todavia, o museu que eu mais queria visitar ficou fechado. Nesse dia e em todos aqueles que se seguirão, ele nunca mais voltará a abrir. Morreu por ordem de uma pessoa, uma só pessoa, hoje por triste acaso do destino ministra, amanhã certamente sem história. Refiro-me, obviamente, ao Museu de Arte Popular, em Belém, cujo encerramento a temporária excelência justificou com a inesquecível frase “os museus nascem, vivem e morrem”. Paz à sua alma.
No MAP guardava-se aquela que é sem grandes dúvidas a melhor colecção de artesanato português recolhida entre as décadas de 40 e 50, numa época que correspondeu a uma fase de ouro do trabalho artesanal português. Que essa colecção estivesse visível, pudesse ser estudada e apreciada, interessava a alguns – aos artesãos deste país por exemplo, que ainda os há imagine-se, e tão poucas referências históricas têm das mãos que trabalharam antes de si; a artistas que redescobrem hoje esse património para sobre ele trabalharem em múltiplos sentidos; a designers cujos caminhos mais recentes e internacionais têm levado à colaboração com o saber dos artesãos; a turistas até que apreciam essas excentricidades populares como tão bem sabem todas as lojas pelo país fora que disso facturam, quase sempre sob formas rafeiras e rasteiras; e até a portugueses destes dias que guardam consigo a memória sentimental de um passado menos urbano. Pois agora, amigos, caso queiram vislumbrar qualquer coisita, é pedir ao Museu de Etnologia que autorize uma olhadela às reservas, entre plumagens amazónicas e máscaras africanas e sorte a vossa.
O MAP era porém muito mais do que uma mera colecção de arte popular e essa foi a sua maldição. Este museu, desenhado por Jorge Segurado e decorado por artistas como Botelho, Tom ou Paulo Ferreira, era testemunho também de uma visão de Portugal, a de um regime certamente, que sobre a nacionalidade muito fantasiou e doutrinou. Lá estão guardados, por exemplo, os protótipos da versão reiventada de um galo de Barcelos, tornado então ícone português e que tão alegremente continuamos a adoptar, sem nos lembrarmos da origem. Tal como o galo, a imagem de Portugal que então foi construida deixou resquícios, com consequências interessantíssimas de analisar aliás. O MAP era uma das mais preciosas e insubstituíveis peças de estudo sobre a “política do espírito” do regime, onde coube também a invenção primitiva da imagem de um país, tão fascinante de perceber nesta era triunfante do marketing. Mas como sempre, e sobre isso estamos conversados, tudo o que incomoda uma certa geração neste país guarda-se na gaveta ou, no caso em causa, degola-se com orgulho, arrogância e desprezo pela curiosidade, inteligência e espírito crítico das gerações que se seguem.
Assim sendo, esconda-se a colecção, entapumem-se os murais e venha então a cópia do Museu da Língua de São Paulo. E vivam os plasmas, essas maravilhas que encantam a gente deste regime.

Senhora Ministra,
Após a sua recente visita ao Museu de Arte Popular, anunciando o seu fecho e declarando aí ser o futuro lugar do “Museu Mar da Língua – Centro Interpretativo das Descobertas”, ficámos a saber que respeita a Democracia – já que deu aos cidadãos portugueses uma explicação que era devida, mas só apenas depois de um abaixo-assinado que solicitava as mesmas declarações, e que no prazo de uma semana reuniu quase oitocentas assinaturas. Porém, continua, para nós, sem responder uma questão de fundo: as verdadeiras razões para o fecho do Museu de Arte Popular.
Em todo este processo há razões para a mais severa preocupação, razões que nos fazem assinar a presente carta, e que passamos a apontar:
i. A ausência de razões, de qualquer ordem, para o fecho do Museu de Arte Popular, sem que este – encerrado há tantos anos – não possa ter comprovado a sua vitalidade, a sua importância e a sua marca junto do público português. Não se trata de fechar um equipamento cultural abandonado, nem de reconfigurar o seu uso, mas de o encerrar sem razões concretas quanto ao seu fim. E aqui, Senhora Ministra, nós, como cidadãos portugueses e agentes culturais, exigimos explicações.
ii. A ausência prática de explicações quanto ao destino da colecção do Museu. Surgiu, pela comunicação social, a indicação de que fosse para o Museu de Etnologia. E essa indicação é da mais gritante preocupação: quer isso dizer que um espólio único, reunido ao longo de quase setenta anos, proveniente de todos os pontos do país, e de, entre outros, Angola, Moçambique, Timor, Macau, vai ser misturado como “etnologia”, perdendo definitivamente a sua noção representativa e primordial de “Arte Popular”? Há uma diferença – substancial – entre ambas, que esperamos que a equipa do Ministério da Cultura, supostamente ao serviço dos cidadãos, deveria conhecer. Mas mais grave que isso será entregar essa colecção a um Museu que, é sabido, não tem espaço nem condições para albergar uma colecção desse valor e dessa envergadura. Ou não queria dizer a Senhora Ministra que a colecção terá o Museu de Etnologia como primeiro destino, para depois ser repartida por Museus Municipais, com os conhecidos constrangimentos orçamentais, e com dificuldades técnicas para tratar peças desse teor? Se assim fôr, perguntamo-nos se seremos capazes de encontrar alguma dessas peças dentro de dez anos…?
iii. A sua resposta quanto a pretender que Portugal seja o único país da União Europeia sem um Museu de Arte Popular de relevo nacional.
iv. O acto incompreensível de separar uma obra de arte modernista integral, separando um edifício desenhado e arquitectado para o fim de ser Museu de Arte Popular da sua colecção, da sua posição geográfica, e do móbil da sua própria existência.
v. A incongruência de utilizar um edifício que dispõe de murais únicos de importantes e representativos artistas portugueses e ocultá-los da vista de todos, exceptuando investigadores.
vi. O motivo para o fecho do único edifício que, no interior e no exterior, como um todo, recorda a Exposição de 1940.
vii. O desrespeito total para com a Arte popular e os seus artistas lembrando que, em qualquer parte do mundo, as linhas de investigação nesta área são cada vez mais importantes e numerosas.
viii. A razão – específica e concreta – para que o Museu tenha ali lugar, quando todos temos conhecimento dos milhares de imóveis que pertencem ao Estado e às Autarquias e se encontram abandonados e em péssimo estado de conservação.
Por todo o explanado, manifestamo-nos contra o encerramento do Museu de Arte Popular, e solicitamos à Senhora Ministra que reconsidere a sua decisão, pelo acto bárbaro e impensado que encerra.
Senhora Ministra: entendemos toda a bondade da decisão de dotar Portugal de um Museu da Língua. Mas não apague esse gesto com um que ligará o seu nome, em Portugal e na Europa, ao mais bárbaro acto de vandalismo executivo, ao decretar, sem razões, sem suporte e com claro prejuízo para a cultura portuguesa, o fecho do Museu de Arte Popular.
Lisboa, 30 de Outubro de 2006
O MAP é um testemunho raro de uma visão do mundo que é parte decisiva da história recente de Portugal e da Europa. Toda a investigação contemporânea sobre a "política de espírito" do Estado Novo tem paragem obrigatória no MAP1. A ministra da Cultura anunciou recentemente o encerramento do Museu de Arte Popular (MAP) e a afectação do seu espaço a um novo museu, da Lingua Portuguesa e dos Descobrimentos.
Sobre o novo museu sabemos ainda pouco. A sua inspiração parece ser o Museu da Lingua Portuguesa de São Paulo (Brasil). À Lingua Portuguesa acrescentam-se, no caso português, os Descobrimentos. A mistura ameaça ser explosiva e, se não houver cuidado, estaremos de novo a falar da língua portuguesa à luz dos lugares-comuns da ideologia "lusófona". Também não sabemos quem irá conceber o projecto nem as parcerias científicas estabelecidas. De mecenas sabe-se pouco. Seguro, seguro é que o novo museu vai custar 2,5 milhões de euros.
Em contrapartida sabemos mais sobre o MAP. Sabemos que o museu foi inaugurado em 1948. O pequeno edifício, bem como a sua museografia, são projecto do arquitecto Jorge Segurado e a decoração (grandes painéis que preenchem a quase totalidade dos alçados) foi assegurada por pintores modernistas que, desde os anos 30, trabalhavam para o SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), recuperando o espirito da Exposição do Mundo Português (1940), particularmente dos núcleos das "Aldeias Portuguesas".
Sabemos que o MAP representa o marco mais significativo dos discursos sobre cultura popular portuguesa promovidos pelo Estado Novo de Salazar e António Ferro. Sabemos também que esses discursos se situam na sequência das tematizações da cultura popular iniciadas pelos grandes etnógrafos de finais do século XIX - TeófIlo Braga, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos - e prosseguidas, durante os anos da I República, por intelectuais como Vergílio Correia ou Luís Chaves. Sabemos que foi em alternativa a essa visão da cultura popular que se constituiu a equipa de Jorge Dias ou que pesquisadores vários, situados à esquerda, desenvolveram o seu trabalho.
Sabemos também que o MAP ficou órfão muito cedo: o Estado Novo desinteressou-se dele, a Revolução viveu incomodada com ele, a democracia esqueceu-o. Nos últimos anos ficou também claro que o MAP tem tido à sua frente uma equipa pouco dinâmica, sem verdadeiro projecto museológico. Mas, depois destes tempos difíceis, a conclusão das obras de restauro do museu permitia antecipar uma "nova vida" para o MAP.2. Ao decidir o seu encerramento, a ministra da Cultura foi de opinião diferente. Fazendo-o, não parece ter levado em conta a importância do MAP e o lugar único que ele ocupa na história do século XX português. Se há museu que, em Portugal, merece ser musealizado é o MAP. O MAP é um testemunho raro de uma visão do mundo que é parte decisiva da história recente de Portugal e da Europa. Toda a investigação contemporânea sobre a "política de espírito" do Estado Novo tem paragem obrigatória no MAP. Ele constituiu o único vestigio- embora indirecto - da Exposição do Mundo Português de 1940. Tudo nele é irrepetível: o edifício, os objectos, o modo como foram coreografados, os murais de Botelho, Tom, Paulo Ferreira ou Manuel Lapa.
3. Por isto tudo, o MAP deve ser musealizado. Não se trata só de pôr o que lá estava e como estava, mas de construir, em cima disso, um percurso crítico, uma reinterpretação, um ponto de vista distanciado.
Em cima dessa musealização, seria possível desenvolver novas valências para o MAP. Uma possibilidade seria abrir o museu - atravês de uma sala de exposições temporárias - para o universo das culturas populares contemporâneas e dos novos artesanatos urbanos e rurais, feitos de misturas, de hibridez e de reinvenções da tradição (Nestor García Canclini). Mas há outras possibilidades, como seja a de agregar ao MAP um novo pavilhão onde o tema da língua portuguesa pudesse ser trabalhado numa perspectiva ampla, não imperial, com recurso simultâneo à linguística e à antropologia. Em qualquer dos casos, este "recomeço" do MAP deveria ser articulado com o Museu Nacional de Etnologia, sob cuja tutela o "novo" MAP deveria ser colocado (como de resto já esteve previsto, mas nunca chegou a acontecer).4. Os museus, disse a senhora ministra, "nascem, vivem e morrem". Mas as decisões políticas - sobre cultura ou sobre outros domínios - não são irreversíveis. Esperemos que seja o caso.
PROFESSOR DE ANTROPOLOGIA, UNL, E PROFESSORA DE HISTÓRIA DE ARTE, UNL
in PÚBLICO | 10 Novembro'06

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