museu de arte popular

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O MUSEU FUTURO



No Diário de Notícias de sábado passado, António Mega Ferreira resolveu responder à minha última crónica sobre o Museu de Arte Popular. Ele não gosta do edifício nem aprecia o conceito museológico do antigo MAP e por isso clama para que alguém tenha a coragem de o deitar abaixo. Uma provocação destas pede mais alguns argumentos, portanto.

A diferença fundamental entre as nossas visões é que Mega Ferreira olha para o passado e presente do MAP e eu, que também contemplo o que hoje lá (não) está, imagino o que poderia ser o seu futuro. Acredito que um Museu de Arte Popular não deve desaparecer, neste momento, e que, justamente este, nascido em peculiares circunstâncias, devidamente repensado, pode dar origem a explorações instigadoras e originais de várias temáticas.

O Museu possui uma colecção de arte popular portuguesa rara, que deveria ser enriquecida e poderia ser explorada tematicamente: da cerâmica à ourivesaria, passando pelos têxteis, existe trabalho bom e belo neste país. O seu estudo e a sua divulgação são hoje fundamentais para que estas artes não se percam e, pelo contrário, prosperem. Existe um mercado de nichos à sua espera, acredito eu que vou tendo alguma experiência nesta matéria.

Mas o artesanato português vive actualmente um momento crítico. A média etária dos artesãos portugueses é cada vez mais elevada, muitos estão a desaparecer sem passar a sua arte às gerações mais novas. Simultaneamente, assistimos ao eclodir de uma nova geração de designers e de um movimento conhecido como “new crafts”, no estrangeiro e também em Portugal, que se interessa por isto e pede este saber. Acredito que o MAP poderia ser esta plataforma de encontro e diálogo, entre uns e outros, fomentando estágios, transmissão e novas explorações.

O facto de o MAP ser um produto da “Política do Espírito” salazarista, um regime que muito doutrinou e fantasiou sobre a nacionalidade, é justamente, a meu ver, a melhor das provocações para querer descobrir mais sobre a relação de inspiração que, ao longo da história, alguns artistas mantiveram com o seu próprio país. Desde a busca do “pittoresco” que apaixonou a geração de Bordalo e Ramalho até aos nossos dias, essa inspiração continua visível e estimulante no trabalho de artistas como Joana Vasconcelos ou João Pedro Vale. E, neste caso, pode passar também muito adequadamente pelo explorar da obra de todo um conjunto de artistas que nos anos 30 e 40 do séc. XX por aí muito se passearam – falo de Sarah Afonso, Maria Keil, Almada Negreiros, Carlos Botelho, Bernardo Marques, Tom, Piló ou Paulo Ferreira.

No fundo, resume-se a isto: que relação queremos ter com as nossas coisas e o nosso país? Por mim, acho mais excitante poder visitar um museu original que não existe em mais lado nenhum do que ir rever uma colecção de arte moderna, como aquela que alberga o CCB que Mega Ferreira dirige, tão similar a tantas outras pelo mundo fora.


Crónica de Catarina Portas, Público 14 Março 2009
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O MUSEU ASSASSINADO

O Museu de Arte Popular, em Belém, está fechado desde 2003. Um destes dias, visitei-o. Entrando por uma porta aberta pelo descuido da meia dúzia de homens das obras que por lá se entretiam mais do que trabalhavam, não tive que pagar bilhete, apenas não fazer barulho. O que vi e fotografei, chocou-me: o chão era um areal soltando poeira sobre as paredes pintadas de frescos vários (havia uns plásticos pendurados nalgumas paredes, de facto, mas esqueceram-se de lhes prender o fundo). O resto lá continuava: a belíssima grade de ferro forjado no primeiro andar, a entrada original com o seu mapa do país em alto relevo, nas paredes o que resta das colaborações de artistas como Manuel Lapa, Tom, Eduardo Anahory, Carlos Botelho, Estrela Faria e Paulo Ferreira com as quais o Museu foi inaugurado a 15 de Julho de 1948. E lixo, muito lixo, jornais dos anos 60 e papéis velhos em resmas pelos cantos. Desolação e abandono absolutos.

Isto que eu vi, um edifício histórico abandonado ao deus dará, sem estima nem sensibilidade, foi o que o Estado do meu país fez ao museu onde se guardava a melhor colecção portuguesa de arte popular. Este conteúdo existe, no entanto, está hoje encafuado nas reservas do Museu de Etnologia para que ninguém o possa ver. Tudo isto aconteceu quando, em 2006, a então Ministra da Cultura de triste memória proferiu a lapidar frase “Os museus nascem, vivem e morrem”, assassinando assim o MAP. Quando o novo Ministro da Cultura tomou posse, alguns de nós suspirámos de alívio, sobretudo quando o ouvimos criticar várias das opções da sua antecessora, incluindo o Museu do Mar da Lígua Portuguesa a instalar no MAP. Mas, na sua mais recente entrevista a este jornal, constatámos que afinal tudo voltou à mesma triste sina. Agora, o Museu da Língua já não vai para o Norte do país, é outra vez para ficar em Belém, no edifício do MAP, pois claro.

E o edifício do MAP é apropriado para o museu da Língua? Não, porque é pequeno. Não, porque a maior parte das suas paredes estão cobertas por elementos e pinturas decorativas de vários artistas portugueses. Não, porque as janelas são muitas e enchem o seu espaço de luz. Como sabemos, a ideia do Museu da Língua não é original, trata-se apenas de uma cópia do museu com o mesmo nome que uns governantes portugueses viram em São Paulo e acharam “giro”. Baseado em novas tecnologias, com uma profusão de ecrãs e muita interactividade. Calha aqui? Não, não calha nada. Implica, como qualquer pessoa de bom senso poderá depreender in loco, a destruição quase total deste edifício, o único que restou, embora remodelado, da Exposição do Mundo Português. Acarreta, para mais, a morte de um museu único no seu género, com uma história sobre a qual há muito para reflectir - a construção da imagem de um país por um regime, simultaneamente falsa e verdadeira, e tão fascinante de observar e dissecar hoje ainda.

Não haverá nesta cidade e no seu porto outra hipótesa para albergar o Museu da Língua? Não haverá, neste país, coragem para uma recuperação exemplar e modernamente interpretada do Museu de Arte Popular?


Crónica de Catarina Portas, Público 21 de Fevereiro de 2009
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