
Ministra da cultura anuncia que o Museu de Arte Popular vai reabrir em 2010.
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1. Gostaria de apresentar dois argumentos principais em defesa do Museu de Arte Popular (MAP), que o presente governo, mal avisado, decidiu encerrar. O primeiro diz que, num quadro – como o que caracteriza a contemporaneidade – em que tudo se tornou susceptível de patrimonialização, faz todo o sentido encarar o MAP como um património que deve ser defendido ou, para ser mais específico, como um museu que deve ser musealizado. O segundo argumento diz que, num quadro – como o que caracteriza a contemporaneidade – em que as culturas populares têm vindo a ser reformatadas a partir de ideias como a hibridez e a criatividade, faz todo o sentido dinamizar o MAP, fazendo dele uma plataforma de diálogo com essas novas formas da cultura popular. O primeiro argumento extrapola para o caso do MAP ideias sobre o património defendidas por historiadores como Pierre Nora e David Lowenthal. O segundo tira consequências de debates sobre as culturas populares pós-modernas protagonizados por antropólogos como Nestor Garcia Canclini ou David Guss. (...)
Ler o artigo na íntegra no Le Monde Diplomatique de Julho.

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Noutra ala das reservas do Museu de Etnologia estão os têxteis. "Eram a parte do espólio mais bem tratada e catalogada." São dezenas de pequenas gavetinhas metálicas com paninhos alvos bordados, envoltos em papel de seda. E armários, que se estendem por todo o comprimento da sala, fechados, que escondem trajes tradicionais, roupas de cama e casa e peças de maior porte.
"Fiz questão que fossem todas marcadas. Está tudo preparado para voltar a casa. Ou para servir o fim que o ministro indicar", diz o director [Joaquim Pais de Brito].
"Ainda falta arrumar a colecção de ex-votos e objectos ligados à vida religiosa", lembra Pais de Brito. "Hoje sabe-se mais sobre o Museu de Arte Popular do que alguma vez se soube."
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Raquel Henriques da Silva, historiadora de arte e ex-directora do Instituto Português de Museus (actual Instituto dos Museus e da Conservação), um dos nomes mais destacados da luta em defesa do Museu de Arte Popular, frisa a importância do espólio da instituição: "Tem colecções muito importantes e reflecte a visão da cultura popular. E temos uma nova geração interessada nesta área da cultura quer em termos de trabalho quer em termos expositivos", defende a especialista, para quem só no espaço para que foi criado, junto ao Tejo, o Museu de Arte Popular faz sentido. A investigadora é uma das mentoras da petição que defende a classificação do edifício e a manutenção do espólio no lugar de origem, já entregue ao ministro da Cultura.
"Estamos perante uma obra que funciona como um todo. A nível de construção e desenho encerra um tipo de arquitectura praticada pelo Estado Novo. Constitui um documento único para a investigação contemporânea sobre a política do Estado Novo", diz ainda Maria Barthez. A investigadora lembra que nem na ditadura este museu foi amado.
"O museu já era mal-amado no Estado Novo. Nos anos 50 já tinham de fazer obras e já não havia dinheiro nessa altura. Foi sempre um museu inacabado. E mesmo assim era o museu mais visitado na década de 1960 a seguir ao dos coches." Nos últimos anos de existência, antes de fechar as portas, o museu recebia anualmente cerca de 32 mil visitas.
Maria Barthez alerta para o futuro da arte popular: "As pessoas não conhecem o que é a arte popular e o que se está a perder com o fim dos artesãos. Somo um país pequeno, com tanta identidade e variedade. Devíamos estimar mais isso."
Mas para Pais de Brito a relação com o Estado Novo é a principal razão pela qual o debate em torno do encerramento do Museu de Arte Popular não colhe mais apoio. Apesar de frisar que os problemas que afectavam a instituição eram muitos. "Acho pouco consistente esta forma súbita de querer pôr trancas à porta quando a porta já foi arrombada há tanto tempo. O problema do Museu de Arte Popular não é de agora. Mas parece que todos estavam satisfeitos." E questionado sobre se seria possível reinventar hoje o Museu de Arte Popular, Pais de Brito responde: "Não me posso pronunciar, já que esse debate não foi aberto."
Movimento em defesa do Museu de Arte Popular vai ao ministro
Públlico, 18.06.2009, Isabel Coutinho
Às perguntas dos deputados na audição parlamentar da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura, que se centraram principalmente nos polémicos dossiers do Museu dos Coches e do Museu de Arte Popular, o ministro da Cultura respondeu ontem na Assembleia da Républica que são decisões que já vinham de ministros que o antecederam (ele está em funções há ano e meio) e que a contestação pública só está a ser feita agora.
José António Pinto Ribeiro não quer que se tomem decisões que sejam erradas nomeadamente em relação ao Museu de Arte Popular (MAP) mas diz também que não é possível paralisar as acções em função da intervenção de pessoas, é preciso saber quais as soluções para aquele espaço. "O Museu da Língua será feito mas estamos disponíveis para um debate sério e fundado" em que se inclua a preservação do edifício e dos painéis. Revelou ainda que os responsáveis pelo movimento cívico de defesa do MAP lhe pediram uma audiência na terça-feira e que vão ser recebidos. (...)
Anúncio no final de uma audição na Assembleia da República
Ministro da Cultura vai receber movimento cívico de defesa do Museu de Arte Popular
17.06.2009 - 17h38
Os responsáveis pelo movimento cívico de defesa do Museu de Arte Popular (MAP) vão ser recebidos pela tutela da Cultura para discutir o futuro daquela entidade museológica, revelou hoje o ministro José António Pinto Ribeiro. No final de uma audição na Assembleia da República, o ministro referiu que o grupo de cidadãos que se tem mobilizado em defesa do MAP pediu na terça-feira uma audiência, mas não especificou quando será o encontro.
"Nós estamos dispostos a fazer uma reavaliação, a falar com as pessoas. É preciso compreender que não podemos viver num regime de paralisia dos processos de realização daquilo que são os propósitos de um governo legitimamente eleito. Não podemos pôr isso em causa", sublinhou Pinto Ribeiro.
O futuro do Museu de Arte Popular foi um dos assuntos que dominou hoje a última audição parlamentar de Pinto Ribeiro nesta legislatura.
Perante as questões dos deputados do PSD, PCP e Bloco de Esquerda sobre esta matéria, José António Pinto Ribeiro reafirmou que o Museu Mar da Língua será criado no edifício onde antes funcionou o MAP e que este é um processo que herdou da sua antecessora, Isabel Pires de Lima.
Ainda assim, não retirou importância à discussão em torno do espólio do MAP, que está actualmente depositado no Museu Nacional de Etnologia, e em torno da noção de arte popular e de "craft design", que utiliazam elementos populares e artes manuais. "O debate público chega muitíssimo tarde, mas não quer dizer que não seja justo e oportuno", referiu o ministro da Cultura.
Em defesa do MAP
O movimento cívico de defesa do MAP integra nomes como a historiadora Raquel Henriques da Silva, a artista plástica Joana Vasconcelos, Catarina Portas e Rosa Pomar. No sábado, este movimento cívico organiza um colóquio em frente ao edifício que albergou o Museu de Arte Popular, em Belém.
O encontro, que pretende debater a importância da existência de um Museu de Arte Popular, contará com as participações de Raquel Henriques da Silva, Rui Afonso Santos, Vera Alves, João Leal e Alexandre Pomar.
Esta iniciativa junta-se a outras acções de defesa daquele museu organizadas por este grupo de cidadãos, como o lançamento de uma petição pública e a entrega ao ministro da Cultura de um pedido de reabertura do processo de classificação do edifício do Museu de Arte Popular. No dia Internacional dos Museus, numa acção de protesto, foi bordado um lenço de namorados e posteriormente pendurado numa das fachadas do edifício do museu.
Público, Última Hora, 17.06.2009


(...) Assumiu a salvação do Museu como causa
Sim. Estou muito envolvida nisso, em evitar que o Museu da Língua destrua o Museu de Arte Popular. Não nos opomos ao Museu da Língua, bem entendido. Acho que é uma excelente ideia, acho é que ele não deve ser colocado ali. O Museu de Arte Popular é um museu e deve conservar uma parte histórica, porque é um dos poucos museus de raiz em Portugal para determinado espólio e tem muitos trabalhos de muitos artistas modernistas portugueses daquela época, muito interessantes e alusivos ao país. Quando digo que o edifício é o todo é porque foi mesmo construído como um todo e achamos que parte disso se deve manter.
(...)
Quando as senhoras da loja do MoMa, trazidas pelo Ministério da Cultura, para investigar o design, ficam babadas em frente às gamelas de madeira talhadas numa só peça por artesãos, e acham aquilo uma peça de design deslumbrante e querem levar a Nova Iorque, tenho vontade de lhes dizer: "Pois é. O mesmo ministério que vos trouxe é aquele que quer acabar com o Museu de Arte Popular". Chamo a isso parolice. Às vezes há um alto grau de parolice nas pessoas que nos comandam. Estão todas deslumbradas quando se fala em Nova Iorque e não percebem onde está o seu potencial.

(...) o Ministério da Cultura deve ser uma organização de gestão cultural diversificada que não pode ser colapsada por iniciativas paralelas como, por exemplo, as que têm sido tomadas pelo Ministério da Economia, para todos os efeitos um ministério por vezes contra a Cultura.Do mesmo modo que a conservação do património (é sempre mais correcto designar como herança cultural) não se pode reduzir à conservação dos castelos ou a declarações em abstracto. No caso concreto, um exemplo da conservação da herança cultural será a conservação e activação concreta do Museu de Arte Popular.
O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, disse hoje que não vai comentar a petição a favor da manutenção do espólio do Museu de Arte Popular nas suas antigas instalações, em Belém, e confirmou que o processo de instalação do Museu da Língua nesse mesmo local está a avançar. A petição, que está disponível online, recolheu até agora 1200 assinaturas."Não tenho a petição e não me vou pronunciar sobre isso. O que posso dizer é que é um processo antigo, longo, que foi objecto de ponderação pela senhora ministra da Cultura que me antecedeu [Isabel Pires de Lima], e que as pessoas que deviam informar-se antes de se pronunciarem sobre isso", declarou Pinto Ribeiro, que falava no final da apresentação da Rota dos Mosteiros Portugueses Património da Humanidade, na Torre de Belém.Sem querer adiantar datas para os próximos passos no processo do Museu da Língua, o ministro considerou "extraordinário que decisões tomadas há tantos anos, que já estão orçamentadas e para as quais já foi afecto dinheiro" sejam agora postas em causa. Informações mais específicas só dará na próxima ida à Assembleia da República. (...)Alexandra Prado Coelho


Em 2006, o Ministério da Cultura despejou o Museu de Arte Popular que havia em Lisboa. Devíamos então ter um museu para estes artistas?
Olhe...devíamos ter. É uma grande lacuna e infelizmente destruiu-se o único museu que havia sem ter criado nenhuma alternativa. Foi um erro cultural. Portugal deve ter um museu em que a arte popular se confronte com outras expressões e que tenha uma dignidade própria. Não se trata de ter um museu de tipo popularucho ou de exaltação passada. Mas de um museu onde estes artistas, que não são menos artistas do que os outros, se possam exprimir.
António Gomes de Pinho, em entrevista à Visão. Ler o texto na íntegra.
Hoje, vou bordar. Não sei bordar grandemente mas não faz mal. Vou aprender com quem souber fazê-lo, eu e todos aqueles que se juntarem a este lavor de protesto que hoje à tarde acontecerá diante das portas fechadas do Museu de Arte Popular, em Belém. Vamos bordar um Lenço dos Namorados em versão gigante declarando a nossa estima por este museu que, mais uma vez, permanecerá fechado na data em que todos os outros comemoram o Dia Mundial dos Museus.
Desde 2006, diversas pessoas de vários quadrantes políticos ou até sem quadrante nenhum escreveram, em nome individual, sobre a decisão de encerramento do Museu. Mas, até hoje, nenhum partido se pronunciou sobre a questão. Eu pensava que os partidos também serviam para interrogar decisões políticas e arbitrárias deste tipo mas, pelos vistos, enganei-me. Até a Papa Maizena parece ter aos olhos partidários maior relevância que a destruição de um Museu único no panorama museológico português. E, no entanto, há aqui mais do que uma questão a merecer atenção, como o facto de as obras de conservação das fundações e cobertura do edifício, já terminadas, terem sido custeadas com dinheiros comunitários atribuídos para a recuperação do MAP – e, afinal, era tudo mentira. Se este é o exemplo do Estado, há legitimidade para todos os privados que concorrem aos QRENs e similares desviarem os fundos que recebem para o que entretanto lhes ocorrer?
A verdade é que o MAP é um museu incómodo para muita gente, de esquerda e de direita. Mas faço minhas as palavras recentes e certeiras de Sara Figueiredo Costa no seu blogue www.cadeiraovoltaire.wordpress.com: (…) a cultura e o património não arrastam o seu contexto histórico como se de uma praga alastrável ao presente se tratasse. Sabemos que a Exposição do Mundo Português se realizou durante a ditadura de Salazar, mas se isso é suficiente para se destruir um Museu que não se dedica à ditadura de Salazar e sim à produção, ao imaginário e às vivências de um país, então destruamos tudo o que se ergueu durante os anos negros do fascismo. Será isso solução para lidarmos com a nossa memória colectiva?”. Muito pelo contrário, também eu acredito que “(…) o facto de o MAP ser o resultado de uma ideologia que repudiamos não só não pode justificar a sua destruição como pode ser um elemento fundamental para se estudar e compreender o período em que foi construído”.
Face ao silêncio dos partidos que nos representam e diante da ausência de justificações do Estado, em quem deveríamos confiar para preservar a nossa história e património, resta-nos a nós, cidadãos, agirmos. Por isso, vamos pegar em agulhas e picá-los. Bordando quadras de amor popular a um Museu do qual, imagine-se, gostamos.
Catarina Portas

O espólio de arte popular espera empacotado no Museu de Etnologia o regresso à origem, como defende lenço a entregar ao ministro da Culturaa Eram 12 à volta de um lenço gigante, sentados em cadeirinhas de madeira, saindo uns, entrando outros, desfiando os novelos coloridos, bordando sem parar a quadra de amor que ao museu-namorado haviam de dar. "Museu de Arte Pupular/Sem ti o que eide ser/Queres-me trocar por outro/Inda hás-de-te arrepender." Erros de português transformados em "grande momento criativo" à memória dos Lenços de Namorados de Viana do Castelo, justificou a artista plástica Joana Vasconcelos, uma das organizadoras do "acto de consciência cívica sobre a identidade e a tradição", organizado "em 48 horas" para protestar contra a reconversão do Museu de Arte Popular no Museu da Língua Portuguesa, decidida no Conselho de Ministros de 7 de Maio, no âmbito do plano de requalificação da frente ribeirinha de Lisboa. Do lado de lá dos buraquinhos das janelas do edifício nascido para a Exposição do Mundo Português (1940) estão três anos de clausura que deram em nascer ervas daninhas entre as pedras. Está o silêncio de um museu fechado que antes era visitado por "27 a 30 mil pessoas por ano" e onde havia "um mundo" de coisas para ver, um museu espoliado que se viu "sem nada" em meros 15 dias no início do ano de 2006, recorda Maria Luísa Abreu Nunes, conservadora do Museu de Arte Popular durante 27 anos. O "sexto ataque" Arqueóloga reformada, Maria Luísa, dedal no dedo, "agora já" pode "falar" e voltou "à guerra" contra "o sexto ataque" ao museu (a ideia de dar ao edifício outra utilização tem sido recorrente). Mas isto foi depois de "dez meses de clausura a ouvir passarinhos e a ver o mar". Porque precisou de descansar depois do "horror" que foi assistir ao despejo do espólio para o Museu de Etnologia, onde permanece "empacotado" e "invisível". "Foi muito violento, fomos muito maltratados", conta, explicitando que nada foi deixado - "nem uma cadeira, nem um calorífico" para enfrentar as "temperaturas negativas no Inverno" - às cinco pessoas que ficaram a trabalhar no museu após a saída do espólio de "um Portugal inteiro". Mas agora é tempo de bordar, até porque "o museu ainda não foi extinto formalmente", apelou Raquel Henriques da Silva, historiadora de Arte e também organizadora da acção colectiva que ontem teve lugar em frente ao museu, à qual compareceram, entre outros, a artista plástica Ana Vidigal, o presidente da Fundação de Serralves, António Gomes de Pinho, o historiador Rui Tavares, a arquitecta Ana Tostões e o escritor Rui Cardoso Martins. Bordar "é viciante", admitia a empresária e co-organizadora do protesto Catarina Portas, de avental tradicional. Quando acabado, o lenço seria entregue "ao pai do namorado", o ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, informou, admitindo que a acção evolua para uma petição (mas para já há um blogue: museuartepopular.blogspot.com). O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) só sairá do actual espaço, em Belém, para a Cordoaria depois do próximo ano, disse o director do Instituto dos Museus e Conservação, Manuel Bairrão Oleiro. O MNA será instalado na Cordoaria Nacional, à Junqueira, "em 2011, se houver condições", garantiu o responsável à Lusa. Sobre os riscos sismológicos da zona, o dirigente argumentou: "Lisboa é uma zona de risco sísmico. Todos os museus e edifícios históricos têm esse risco. Tem de ser avaliado, mas não creio que seja fundamental para que a transferência do museu não possa ocorrer." A transferência para a Cordoaria permitirá a expansão do vizinho Museu de Marinha e a exposição de parte do espólio de arqueologia subaquática.

O Museu da Língua Portuguesa vai, afinal, ficar mesmo instalado no edifício que acolheu o Museu de Arte Popular, em Belém, e a sua instalação vai ficar a cargo da sociedade Frente Tejo, S.A.A decisão foi hoje tomada em Conselho de Ministros, que a justifica dizendo que a intervenção visa “promover a requalificação do edifício do antigo Museu de Arte Popular, situado na Avenida de Brasília, reconvertendo aquele que foi originalmente o pavilhão da Vida Popular da Exposição do Mundo Português num inovador e contemporâneo espaço multimédia e centro privilegiado de promoção da língua portuguesa”.A nova instituição, com a localização em Belém atrás referida, foi lançada pela anterior ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, em 2006, então com a designação de Museu do Mar e da Língua Portuguesa, num projecto assumidamente inspirado no museu congénere existente em S. Paulo.O actual ministro José António Pinto Ribeiro, pouco tempo depois de tomar posse do cargo, confirmou a sua intenção de avançar com o projecto, mas, em Maio do ano passado, admitiu a mudança de localização. Uma hipótese que então colocou em cima da mesa foi a estação ferroviária do Rossio, no centro de Lisboa, invocando, precisamente, o caso do museu brasileiro, que está instalado na Estação da Luz, um interface de metro e comboio.Mais tarde, Pinto Ribeiro viria a recuar para a primeira localização, que anunciou, por exemplo, na sua mais recente intervenção na Comissão Parlamentar de Cultura da Assembleia da República, no dia 8 de Abril, quando associou o Museu da Língua Portuguesa ao vasto plano de requalificação da zona de Belém, para onde está também projectado o novo Museu dos Coches, com projecto do arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha.Sérgio C. Andrade 07.05.2009 - 17h35
O tema desta crónica retoma um tema que já abordei, neste espaço da L+Arte mas também noutros espaços de comunicação. O caso é que, como recentemente disse (Câmara Clara de 14 de Dezembro) parece que o Museu de Arte Popular (MAP) tem sete foles, usando adequado adágio da fala popular…
Depois da ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, ter decidido fechá-lo definitivamente, fazer instalar as suas colecções no Museu Nacional de Etnologia (MNE) e decretar que, no edifício dos anos de 1940, se instalaria o Museu da Língua Portuguesa (misturando-a com o mar, coisa que, confesso, nunca consegui fixar, mesmo em mero título), a certidão de morte estava proclamada. Mas poderá não ser assim: a ministra saiu sem que, juridicamente, o MAP tenha sido extinto. O actual Ministro creio que nunca falou sobre o assunto e, apesar da direcção do Instituto Português e da Conservação (IMC), me garantirem que nenhuma revisão é esperável, resolvi renovar os meus votos em sentido contrário. Por duas ordens de razões: uma do domínio dos princípios, outra porque poderá haver uma interessante solução.
Recapitulando os princípios: o MAP foi uma tardia criação do Estado Novo que, mais do que a ideologia do regime (só então em processo de cristalização improdutiva) manifesta a ideologia e a estética do modernismo na abordagens das heranças populares, valorizando os seus casticismos, inventariados desde os finais do século XIX. O inventário e a valorização dos quotidianos de trabalho e festa não ignorou metodologias mais ou menos rigorosas da etnologia, mas submeteu-as ao gosto pelos objectos únicos, característico dos procedimentos dos museus de belas-artes. Esta hibridez de actuação informa a própria arquitectura do edifício – visando recriar motivos das casas populares do sul de Portugal, mesclando-os com a erudição modernista da fachada principal – bem como a sua importante decoração interior, realizada pelo escol dos pintores e ilustradores dos anos de 1930-40.
No conjunto dos factos apontados radica a impossibilidade de reconversão do edifício a outras funções: ele nasceu como Pavilhão da Arte Popular na Exposição do Mundo Português (1940) e quando foi transformado em Museu assumiu essa marca de origem, fazendo dela o mote da museografia modernista do arquitecto Jorge Segurado. Não podendo ser outra coisa senão o que sempre foi e não podendo ser alterado por questões sérias de salvaguarda patrimonial (é o único edifício sobrevivente do conjunto expositivo de 1940 e possui, in situ, uma rara colecção de pinturas de escala considerável), só a modernização do MAP, sobre a conservação do edifício, é saída aceitável e não a sua apropriação para usos desadequados que invejam a espectacularidade do sítio. Se a decisão for correcta, foi positivo que as colecções tenham sido recolhidas no MNE onde, finalmente, estão a ser estudadas. Deverão retornar depois à casa-mãe, na figura institucional de núcleo museológico do MNE que assegurará a sua programação, eventualmente com a entrada de peças do seu próprio acervo e a assunção plena do passado, através da narrativa expositiva das razões de ser do MAP , no contexto do Estado Novo e das heranças da primeira fase da Etnologia em Portugal.
As razões absolutamente constrangentes para a salvaguarda do MAP não devem ignorar que, ao contrário de vários ministros e de algumas pessoas que, militantemente, pretendem apagar os vestígios da cultura do Estado Novo, há muita gente que tem saudades do Museu, considerando o seu papel afectivo na salvaguarda de memórias e de patrimónios artesanais. Entre os amigos do MAP, quero evocar aqui Catarina Portas, empresária que, nos últimos anos, tem desenvolvido um trabalho meritório em prol da cultura portuguesa, quer nos domínios dos artesanatos domésticos, quer de indústrias extintas que inventaram e implantaram marcas portuguesas. Diversas vezes, a Catarina me abordou, cheia de vontade de fazer alguma coisa, na sua loja de Lisboa, para questionar o desaparecimento do MAP. Mas, há dias, fui eu que avancei, propondo que exploremos a estreita brecha de possibilidades que permanece.
Neste momento, tanto o Ministro como a Secretária de Estado estão empenhados, positivamente, em reflectir sobre os caminhos possíveis para modernizar a gestão dos museus. Creio que pretendem utilizar a maior flexibilidade dos regimes da administração pública, mas também o quadro jurídico que será criado com a Lei sobre o Regime Geral dos Bens do Domínio Público que se encontra em discussão. Não é a altura de me deter sobre o projecto deste último Diploma que está a ser negativamente considerado pelas associações de defesa do património histórico, nomeadamente o ICOMOS. O que o Estado pretende é, à partida, positivo: assumir que não tem nem meios nem capacidade para gerir todo o património público e que, nesse quadro, deve pensar soluções diversas, entre elas a concessão a privados.
Correndo o risco de escandalizar muitos amigos, afirmo que poderá estar aqui a solução para o MAP. Idealmente, considero que ele deve reabrir como núcleo do MNE e por este programado. Mas não podemos esquecer as dificuldades do próprio Museu, extensivas ao IMC que o tutela, nem – é preciso dizê-lo com clareza – o desamor que, em geral, o envolve. Ora há uma empresária, dedicada com sucesso e grande qualidade à promoção da cultura popular portuguesa, que receberia com agrado a concessão do MAP. Não o deseja para enriquecer, antes para salvara e valorizar os sentidos com que ele foi criado.
Pela minha parte, se o Ministro da Cultura quiser entender as potencialidades deste desafio, estou disponível para participar na sua concretização. Para salvar o MAP (o que exige amor e entusiasmo) e para testar, na prática, as desejadas alterações nos modelos de gestão dos museus em Portugal. Recordo o que todos os historiadores sabem: desde 1820, somos bastantes bons a fazer leis e péssimos a implementá-las. Há muito defendo que, pelo menos na Cultura, deveríamos começar por práticas inovadoras em situações concretas.
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