quarta-feira, 17 de junho de 2009

(...) Assumiu a salvação do Museu como causa
Sim. Estou muito envolvida nisso, em evitar que o Museu da Língua destrua o Museu de Arte Popular. Não nos opomos ao Museu da Língua, bem entendido. Acho que é uma excelente ideia, acho é que ele não deve ser colocado ali. O Museu de Arte Popular é um museu e deve conservar uma parte histórica, porque é um dos poucos museus de raiz em Portugal para determinado espólio e tem muitos trabalhos de muitos artistas modernistas portugueses daquela época, muito interessantes e alusivos ao país. Quando digo que o edifício é o todo é porque foi mesmo construído como um todo e achamos que parte disso se deve manter.
(...)
Quando as senhoras da loja do MoMa, trazidas pelo Ministério da Cultura, para investigar o design, ficam babadas em frente às gamelas de madeira talhadas numa só peça por artesãos, e acham aquilo uma peça de design deslumbrante e querem levar a Nova Iorque, tenho vontade de lhes dizer: "Pois é. O mesmo ministério que vos trouxe é aquele que quer acabar com o Museu de Arte Popular". Chamo a isso parolice. Às vezes há um alto grau de parolice nas pessoas que nos comandam. Estão todas deslumbradas quando se fala em Nova Iorque e não percebem onde está o seu potencial.
Catarina Portas em entrevista à revista
Outlook (suplemento do
Semanário Económico), 13 de Junho de 2009.

Gamela portuguesa de madeira. Imagem ©
Feitoria
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
Público, 17 de Maio de 2009
Hoje, vou bordar. Não sei bordar grandemente mas não faz mal. Vou aprender com quem souber fazê-lo, eu e todos aqueles que se juntarem a este lavor de protesto que hoje à tarde acontecerá diante das portas fechadas do Museu de Arte Popular, em Belém. Vamos bordar um Lenço dos Namorados em versão gigante declarando a nossa estima por este museu que, mais uma vez, permanecerá fechado na data em que todos os outros comemoram o Dia Mundial dos Museus.
Desde 2006, diversas pessoas de vários quadrantes políticos ou até sem quadrante nenhum escreveram, em nome individual, sobre a decisão de encerramento do Museu. Mas, até hoje, nenhum partido se pronunciou sobre a questão. Eu pensava que os partidos também serviam para interrogar decisões políticas e arbitrárias deste tipo mas, pelos vistos, enganei-me. Até a Papa Maizena parece ter aos olhos partidários maior relevância que a destruição de um Museu único no panorama museológico português. E, no entanto, há aqui mais do que uma questão a merecer atenção, como o facto de as obras de conservação das fundações e cobertura do edifício, já terminadas, terem sido custeadas com dinheiros comunitários atribuídos para a recuperação do MAP – e, afinal, era tudo mentira. Se este é o exemplo do Estado, há legitimidade para todos os privados que concorrem aos QRENs e similares desviarem os fundos que recebem para o que entretanto lhes ocorrer?
A verdade é que o MAP é um museu incómodo para muita gente, de esquerda e de direita. Mas faço minhas as palavras recentes e certeiras de Sara Figueiredo Costa no seu blogue www.cadeiraovoltaire.wordpress.com: (…) a cultura e o património não arrastam o seu contexto histórico como se de uma praga alastrável ao presente se tratasse. Sabemos que a Exposição do Mundo Português se realizou durante a ditadura de Salazar, mas se isso é suficiente para se destruir um Museu que não se dedica à ditadura de Salazar e sim à produção, ao imaginário e às vivências de um país, então destruamos tudo o que se ergueu durante os anos negros do fascismo. Será isso solução para lidarmos com a nossa memória colectiva?”. Muito pelo contrário, também eu acredito que “(…) o facto de o MAP ser o resultado de uma ideologia que repudiamos não só não pode justificar a sua destruição como pode ser um elemento fundamental para se estudar e compreender o período em que foi construído”.
Face ao silêncio dos partidos que nos representam e diante da ausência de justificações do Estado, em quem deveríamos confiar para preservar a nossa história e património, resta-nos a nós, cidadãos, agirmos. Por isso, vamos pegar em agulhas e picá-los. Bordando quadras de amor popular a um Museu do qual, imagine-se, gostamos.
Catarina Portas
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

No Diário de Notícias de sábado passado, António Mega Ferreira resolveu responder à minha última crónica sobre o Museu de Arte Popular. Ele não gosta do edifício nem aprecia o conceito museológico do antigo MAP e por isso clama para que alguém tenha a coragem de o deitar abaixo. Uma provocação destas pede mais alguns argumentos, portanto.
A diferença fundamental entre as nossas visões é que Mega Ferreira olha para o passado e presente do MAP e eu, que também contemplo o que hoje lá (não) está, imagino o que poderia ser o seu futuro. Acredito que um Museu de Arte Popular não deve desaparecer, neste momento, e que, justamente este, nascido em peculiares circunstâncias, devidamente repensado, pode dar origem a explorações instigadoras e originais de várias temáticas.
O Museu possui uma colecção de arte popular portuguesa rara, que deveria ser enriquecida e poderia ser explorada tematicamente: da cerâmica à ourivesaria, passando pelos têxteis, existe trabalho bom e belo neste país. O seu estudo e a sua divulgação são hoje fundamentais para que estas artes não se percam e, pelo contrário, prosperem. Existe um mercado de nichos à sua espera, acredito eu que vou tendo alguma experiência nesta matéria.
Mas o artesanato português vive actualmente um momento crítico. A média etária dos artesãos portugueses é cada vez mais elevada, muitos estão a desaparecer sem passar a sua arte às gerações mais novas. Simultaneamente, assistimos ao eclodir de uma nova geração de designers e de um movimento conhecido como “new crafts”, no estrangeiro e também em Portugal, que se interessa por isto e pede este saber. Acredito que o MAP poderia ser esta plataforma de encontro e diálogo, entre uns e outros, fomentando estágios, transmissão e novas explorações.
O facto de o MAP ser um produto da “Política do Espírito” salazarista, um regime que muito doutrinou e fantasiou sobre a nacionalidade, é justamente, a meu ver, a melhor das provocações para querer descobrir mais sobre a relação de inspiração que, ao longo da história, alguns artistas mantiveram com o seu próprio país. Desde a busca do “pittoresco” que apaixonou a geração de Bordalo e Ramalho até aos nossos dias, essa inspiração continua visível e estimulante no trabalho de artistas como Joana Vasconcelos ou João Pedro Vale. E, neste caso, pode passar também muito adequadamente pelo explorar da obra de todo um conjunto de artistas que nos anos 30 e 40 do séc. XX por aí muito se passearam – falo de Sarah Afonso, Maria Keil, Almada Negreiros, Carlos Botelho, Bernardo Marques, Tom, Piló ou Paulo Ferreira.
No fundo, resume-se a isto: que relação queremos ter com as nossas coisas e o nosso país? Por mim, acho mais excitante poder visitar um museu original que não existe em mais lado nenhum do que ir rever uma colecção de arte moderna, como aquela que alberga o CCB que Mega Ferreira dirige, tão similar a tantas outras pelo mundo fora.
Crónica de Catarina Portas, Público 14 Março 2009
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O Museu de Arte Popular, em Belém, está fechado desde 2003. Um destes dias, visitei-o. Entrando por uma porta aberta pelo descuido da meia dúzia de homens das obras que por lá se entretiam mais do que trabalhavam, não tive que pagar bilhete, apenas não fazer barulho. O que vi e fotografei, chocou-me: o chão era um areal soltando poeira sobre as paredes pintadas de frescos vários (havia uns plásticos pendurados nalgumas paredes, de facto, mas esqueceram-se de lhes prender o fundo). O resto lá continuava: a belíssima grade de ferro forjado no primeiro andar, a entrada original com o seu mapa do país em alto relevo, nas paredes o que resta das colaborações de artistas como Manuel Lapa, Tom, Eduardo Anahory, Carlos Botelho, Estrela Faria e Paulo Ferreira com as quais o Museu foi inaugurado a 15 de Julho de 1948. E lixo, muito lixo, jornais dos anos 60 e papéis velhos em resmas pelos cantos. Desolação e abandono absolutos.
Isto que eu vi, um edifício histórico abandonado ao deus dará, sem estima nem sensibilidade, foi o que o Estado do meu país fez ao museu onde se guardava a melhor colecção portuguesa de arte popular. Este conteúdo existe, no entanto, está hoje encafuado nas reservas do Museu de Etnologia para que ninguém o possa ver. Tudo isto aconteceu quando, em 2006, a então Ministra da Cultura de triste memória proferiu a lapidar frase “Os museus nascem, vivem e morrem”, assassinando assim o MAP. Quando o novo Ministro da Cultura tomou posse, alguns de nós suspirámos de alívio, sobretudo quando o ouvimos criticar várias das opções da sua antecessora, incluindo o Museu do Mar da Lígua Portuguesa a instalar no MAP. Mas, na sua mais recente entrevista a este jornal, constatámos que afinal tudo voltou à mesma triste sina. Agora, o Museu da Língua já não vai para o Norte do país, é outra vez para ficar em Belém, no edifício do MAP, pois claro.
E o edifício do MAP é apropriado para o museu da Língua? Não, porque é pequeno. Não, porque a maior parte das suas paredes estão cobertas por elementos e pinturas decorativas de vários artistas portugueses. Não, porque as janelas são muitas e enchem o seu espaço de luz. Como sabemos, a ideia do Museu da Língua não é original, trata-se apenas de uma cópia do museu com o mesmo nome que uns governantes portugueses viram em São Paulo e acharam “giro”. Baseado em novas tecnologias, com uma profusão de ecrãs e muita interactividade. Calha aqui? Não, não calha nada. Implica, como qualquer pessoa de bom senso poderá depreender in loco, a destruição quase total deste edifício, o único que restou, embora remodelado, da Exposição do Mundo Português. Acarreta, para mais, a morte de um museu único no seu género, com uma história sobre a qual há muito para reflectir - a construção da imagem de um país por um regime, simultaneamente falsa e verdadeira, e tão fascinante de observar e dissecar hoje ainda.
Não haverá nesta cidade e no seu porto outra hipótesa para albergar o Museu da Língua? Não haverá, neste país, coragem para uma recuperação exemplar e modernamente interpretada do Museu de Arte Popular?
Crónica de Catarina Portas, Público 21 de Fevereiro de 2009
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terça-feira, 31 de março de 2009
No último fim de semana, esquecendo as misérias e humilhações orçamentais de todo o ano, fez-se festa nos museus. Noite fora, abriram-se as portas e mostraram-se colecções, bebeu-se e dançou-se. Ainda bem. Todavia, o museu que eu mais queria visitar ficou fechado. Nesse dia e em todos aqueles que se seguirão, ele nunca mais voltará a abrir. Morreu por ordem de uma pessoa, uma só pessoa, hoje por triste acaso do destino ministra, amanhã certamente sem história. Refiro-me, obviamente, ao Museu de Arte Popular, em Belém, cujo encerramento a temporária excelência justificou com a inesquecível frase “os museus nascem, vivem e morrem”. Paz à sua alma.
No MAP guardava-se aquela que é sem grandes dúvidas a melhor colecção de artesanato português recolhida entre as décadas de 40 e 50, numa época que correspondeu a uma fase de ouro do trabalho artesanal português. Que essa colecção estivesse visível, pudesse ser estudada e apreciada, interessava a alguns – aos artesãos deste país por exemplo, que ainda os há imagine-se, e tão poucas referências históricas têm das mãos que trabalharam antes de si; a artistas que redescobrem hoje esse património para sobre ele trabalharem em múltiplos sentidos; a designers cujos caminhos mais recentes e internacionais têm levado à colaboração com o saber dos artesãos; a turistas até que apreciam essas excentricidades populares como tão bem sabem todas as lojas pelo país fora que disso facturam, quase sempre sob formas rafeiras e rasteiras; e até a portugueses destes dias que guardam consigo a memória sentimental de um passado menos urbano. Pois agora, amigos, caso queiram vislumbrar qualquer coisita, é pedir ao Museu de Etnologia que autorize uma olhadela às reservas, entre plumagens amazónicas e máscaras africanas e sorte a vossa.
O MAP era porém muito mais do que uma mera colecção de arte popular e essa foi a sua maldição. Este museu, desenhado por Jorge Segurado e decorado por artistas como Botelho, Tom ou Paulo Ferreira, era testemunho também de uma visão de Portugal, a de um regime certamente, que sobre a nacionalidade muito fantasiou e doutrinou. Lá estão guardados, por exemplo, os protótipos da versão reiventada de um galo de Barcelos, tornado então ícone português e que tão alegremente continuamos a adoptar, sem nos lembrarmos da origem. Tal como o galo, a imagem de Portugal que então foi construida deixou resquícios, com consequências interessantíssimas de analisar aliás. O MAP era uma das mais preciosas e insubstituíveis peças de estudo sobre a “política do espírito” do regime, onde coube também a invenção primitiva da imagem de um país, tão fascinante de perceber nesta era triunfante do marketing. Mas como sempre, e sobre isso estamos conversados, tudo o que incomoda uma certa geração neste país guarda-se na gaveta ou, no caso em causa, degola-se com orgulho, arrogância e desprezo pela curiosidade, inteligência e espírito crítico das gerações que se seguem.
Assim sendo, esconda-se a colecção, entapumem-se os murais e venha então a cópia do Museu da Língua de São Paulo. E vivam os plasmas, essas maravilhas que encantam a gente deste regime.
Crónica de Catarina Portas, Público 26 Maio 2007
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