museu de arte popular

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Depoimento de Rui Afonso Santos

Inaugurado em 1948, o Museu Nacional de Arte Popular constitui a despedida e o testamento espiritual de António Ferro. Director do SNI (Secretariado Nacional de Informação) desde 1933, Ferro desenvolveu à frente deste organismo considerável actividade cultural de índole modernista. Os sucessos como comissário das representações portuguesas enviadas às Exposições Internacionais de Paris (1937), de Nova Iorque e São Francisco (1939), premiadas pela crítica internacional, materializaram-se neste Museu em vias de classificação patrimonial.
Reaproveitando o Pavilhão da Vida Popular riscado pelos arquitectos Veloso Reis e João Simões para a Exposição do Mundo Português de 1940, único pavilhão que resta daquele magno certame (com esculturas e relevos murais exteriores de Barata Feyo, Maria Keil e Henrique Moreira), o edifício recebeu arranjos arquitecturais interiores de Jorge Segurado, design expositivo do próprio Segurado e Tomás de Mello /Tom e legendas de António Ferro, tudo numa qualidade museográfica inédita, absolutamente moderna e, à época, raríssima.
Tornando perenes as soluções decorativas desenvolvidas para as Exposições Internacionais pela equipa de decoradores modernistas (Fred Kradolfer, Bernardo Marques, José Rocha, Carlos Botelho, Thomaz de Mello/Tom, Emmerico Nunes, Paulo Ferreira, Estrela Faria e Eduardo Anahory) que Ferro congregou, o Museu recebeu qualificados frescos murais de Tom, Manuel Lapa, Paulo Ferreira, Estrela Faria e Carlos Botelho, bem como fotografias de Mário e Horácio Novais e de outros fotógrafos modernistas.
As soluções museológicas não se orientaram pelos modelos modernistas norte-americanos que, nos anos 30, o MOMA desenvolveu, mas pelos exemplos europeus modernistas coevos (nomeadamente franceses e alemães) que, em plenos anos 40, declinaram por toda a Europa. Bastaria esse facto para lhe assegurar a maior importância museográfica a nível internacional.

Recorrendo a materiais simples (madeiras, contraplacados, metais), com uma fluidez de espaços e cuidados de iluminação inéditos, o MAP foi o primeiro museu português com uma museologia integralmente moderna e concebida de raiz. O cuidado na apresentação das colecções foi acrescido de um sentido decorativo moderno, cenográfico e festivo que Ferro vinha desenvolvendo desde as suas «Campanhas do Bom Gosto» que lançaram os fundamentos do design contemporâneo em Portugal.
As suas colecções, ainda por estudar, constituem o documento vivo da recolha e também da invenção etnográfica desenvolvida pelo SNI desde os anos 30.
Juntamente com a produção recolhida junto de artesãos e artífices logo a partir de 1933 (barros, têxteis, mobiliário, ourivesaria, cestaria, escultura, vestuário, cutelaria, metais, instrumentos musicais, veículos, modelos de barcos), e apresentada nas exposições de Arte Popular Portuguesa que o SPN/SNI apresentou, com grande sucesso, em Tripoli, Paris, Genebra, Nova Iorque, São Francisco, Sevilha e Madrid, o MAP recolheu igualmente outro tipo de produções: desde logo exemplos de mobiliário e cerâmica que remontam ao século XVIII, e que ajudam a compreender a disseminação das formas da cultura erudita junto das classes populares. Além deles, recolheu também objectos elaborados sob orientação de artistas como Paulo Ferreira junto de artesãos - a colecção de Galos de Barcelos, por exemplo, ilustra bem esta invenção folclórica, apresentando os seus protótipos formas e tipologias bem diversas do modelo iconográfico do Galo Negro fixado nos Anos 50.

Rui Afonso Santos



Sala do Minho - Galos de Barcelos
Copyright: © IMC / MC


Instituição / Proprietário: Museu de Arte Popular
Número de Inventário do Objecto: CER 1805/83
Denominação / Título: Representação zoomórfica - Galo de Barcelos - Barcelos
Copyright:© IMC / MC


Instituição / Proprietário: Museu de Arte Popular
Número de Inventário do Objecto: CER 2629/83
Denominação / Título: Representação zoomórfica - Galo de três pés - Barcelos
Copyright: © IMC / MC

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UM ACTO IRRESPONSÁVEL, INCONSCIENTE E BÁRBARO


Sobre o encerramento do Museu de Arte Popular

Senhora Ministra,

Após a sua recente visita ao Museu de Arte Popular, anunciando o seu fecho e declarando aí ser o futuro lugar do “Museu Mar da Língua – Centro Interpretativo das Descobertas”, ficámos a saber que respeita a Democracia – já que deu aos cidadãos portugueses uma explicação que era devida, mas só apenas depois de um abaixo-assinado que solicitava as mesmas declarações, e que no prazo de uma semana reuniu quase oitocentas assinaturas. Porém, continua, para nós, sem responder uma questão de fundo: as verdadeiras razões para o fecho do Museu de Arte Popular.
Em todo este processo há razões para a mais severa preocupação, razões que nos fazem assinar a presente carta, e que passamos a apontar:

i. A ausência de razões, de qualquer ordem, para o fecho do Museu de Arte Popular, sem que este – encerrado há tantos anos – não possa ter comprovado a sua vitalidade, a sua importância e a sua marca junto do público português. Não se trata de fechar um equipamento cultural abandonado, nem de reconfigurar o seu uso, mas de o encerrar sem razões concretas quanto ao seu fim. E aqui, Senhora Ministra, nós, como cidadãos portugueses e agentes culturais, exigimos explicações.

ii. A ausência prática de explicações quanto ao destino da colecção do Museu. Surgiu, pela comunicação social, a indicação de que fosse para o Museu de Etnologia. E essa indicação é da mais gritante preocupação: quer isso dizer que um espólio único, reunido ao longo de quase setenta anos, proveniente de todos os pontos do país, e de, entre outros, Angola, Moçambique, Timor, Macau, vai ser misturado como “etnologia”, perdendo definitivamente a sua noção representativa e primordial de “Arte Popular”? Há uma diferença – substancial – entre ambas, que esperamos que a equipa do Ministério da Cultura, supostamente ao serviço dos cidadãos, deveria conhecer. Mas mais grave que isso será entregar essa colecção a um Museu que, é sabido, não tem espaço nem condições para albergar uma colecção desse valor e dessa envergadura. Ou não queria dizer a Senhora Ministra que a colecção terá o Museu de Etnologia como primeiro destino, para depois ser repartida por Museus Municipais, com os conhecidos constrangimentos orçamentais, e com dificuldades técnicas para tratar peças desse teor? Se assim fôr, perguntamo-nos se seremos capazes de encontrar alguma dessas peças dentro de dez anos…?

iii. A sua resposta quanto a pretender que Portugal seja o único país da União Europeia sem um Museu de Arte Popular de relevo nacional.

iv. O acto incompreensível de separar uma obra de arte modernista integral, separando um edifício desenhado e arquitectado para o fim de ser Museu de Arte Popular da sua colecção, da sua posição geográfica, e do móbil da sua própria existência.

v. A incongruência de utilizar um edifício que dispõe de murais únicos de importantes e representativos artistas portugueses e ocultá-los da vista de todos, exceptuando investigadores.

vi. O motivo para o fecho do único edifício que, no interior e no exterior, como um todo, recorda a Exposição de 1940.

vii. O desrespeito total para com a Arte popular e os seus artistas lembrando que, em qualquer parte do mundo, as linhas de investigação nesta área são cada vez mais importantes e numerosas.

viii. A razão – específica e concreta – para que o Museu tenha ali lugar, quando todos temos conhecimento dos milhares de imóveis que pertencem ao Estado e às Autarquias e se encontram abandonados e em péssimo estado de conservação.

Por todo o explanado, manifestamo-nos contra o encerramento do Museu de Arte Popular, e solicitamos à Senhora Ministra que reconsidere a sua decisão, pelo acto bárbaro e impensado que encerra.
Senhora Ministra: entendemos toda a bondade da decisão de dotar Portugal de um Museu da Língua. Mas não apague esse gesto com um que ligará o seu nome, em Portugal e na Europa, ao mais bárbaro acto de vandalismo executivo, ao decretar, sem razões, sem suporte e com claro prejuízo para a cultura portuguesa, o fecho do Museu de Arte Popular.

Lisboa, 30 de Outubro de 2006


Petição redigida por Pedro Sena Lino e Rui Santos em 2007
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