museu de arte popular

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CINCO PERGUNTAS POPULARES

Uma crónica de Rubem Carvalho, aquando da polémica em torno do fecho do Museu de Arte Popular.


O projecto anunciado para o velho museu de "arte popular" em Belém levanta - até pelo que não foi esclarecido - diversas interrogações. Aqui se deixam cinco.

Primeiro. Associar num equipamento museológico a língua portuguesa e os descobrimentos faz sentido? E, se faz, a partir de que pressupostos culturais, científicos e ideológicos? Tata-se de uma associação virtuosa ou, pelo contrário, acabará a fazer prevalecer - com incontornável significado cultural e político - a visão de um dos aspectos sobre o outro? Naturalmente que a divulgação da língua portuguesa pelo mundo está intimamente associada aos descobrimentos, mas os descobrimentos não têm de ser abordados para além da questão da língua e a língua não tem de ser abordada para além dos descobrimentos?

Segundo. O tratamento museológico de um fenómeno linguístico tem hoje exigências (simultaneamente permitidas e exigidas pela evolução tecnológica) de que, segundo parece, as experiências virtuais de São Paulo são um estimulante exemplo. O edifício de Belém adequa-se minimamente a estas exigências? Mais importante: a musealização dos descobrimentos tem características, exigências e possibilidades completamente diferentes: é compatível, será enriquecedora e coerente a junção das duas?

Terceiro. O acervo existente (ainda?...) do antigo Museu de Arte Popular é contraditório no seu valor e significado, mas, para além exactamente da globalidade, de que já se falará, contém peças que, em quantidade e qualidade, são hoje únicas. A decisão tomada parece prever a sua disseminação por diversas instituições, algumas que poderão com coerência e rigor acolhê-las (caso do Museu de Etnologia). Mas não se previu, segundo parece, nenhuma solução para manter criticamente coerente um acervo que o é? Dispersá--lo peça a peça, à luz não se sabe bem de que critérios, não é evidentemente a liquidação de um património conceptual?

Quarto. O próprio museu era, como tem sido sublinhado, na sua globalidade - concepção, colecção, edifício - um elemento demonstrativo de uma visão cultural, ideológica e política do povo e da sua arte, própria do salazarismo. Que fica dessa relevante memória?

Quinta e insidiosa pergunta: depois da zona oriental e da Expo de Guterres, o Governo PS resolve acolher-se novamente aos convencionais faustos do poder da zona de Belém?...


Rubem de Carvalho, Diário de Notícias 2007
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O MUSEU ROUBADO

No último fim de semana, esquecendo as misérias e humilhações orçamentais de todo o ano, fez-se festa nos museus. Noite fora, abriram-se as portas e mostraram-se colecções, bebeu-se e dançou-se. Ainda bem. Todavia, o museu que eu mais queria visitar ficou fechado. Nesse dia e em todos aqueles que se seguirão, ele nunca mais voltará a abrir. Morreu por ordem de uma pessoa, uma só pessoa, hoje por triste acaso do destino ministra, amanhã certamente sem história. Refiro-me, obviamente, ao Museu de Arte Popular, em Belém, cujo encerramento a temporária excelência justificou com a inesquecível frase “os museus nascem, vivem e morrem”. Paz à sua alma.

No MAP guardava-se aquela que é sem grandes dúvidas a melhor colecção de artesanato português recolhida entre as décadas de 40 e 50, numa época que correspondeu a uma fase de ouro do trabalho artesanal português. Que essa colecção estivesse visível, pudesse ser estudada e apreciada, interessava a alguns – aos artesãos deste país por exemplo, que ainda os há imagine-se, e tão poucas referências históricas têm das mãos que trabalharam antes de si; a artistas que redescobrem hoje esse património para sobre ele trabalharem em múltiplos sentidos; a designers cujos caminhos mais recentes e internacionais têm levado à colaboração com o saber dos artesãos; a turistas até que apreciam essas excentricidades populares como tão bem sabem todas as lojas pelo país fora que disso facturam, quase sempre sob formas rafeiras e rasteiras; e até a portugueses destes dias que guardam consigo a memória sentimental de um passado menos urbano. Pois agora, amigos, caso queiram vislumbrar qualquer coisita, é pedir ao Museu de Etnologia que autorize uma olhadela às reservas, entre plumagens amazónicas e máscaras africanas e sorte a vossa.

O MAP era porém muito mais do que uma mera colecção de arte popular e essa foi a sua maldição. Este museu, desenhado por Jorge Segurado e decorado por artistas como Botelho, Tom ou Paulo Ferreira, era testemunho também de uma visão de Portugal, a de um regime certamente, que sobre a nacionalidade muito fantasiou e doutrinou. Lá estão guardados, por exemplo, os protótipos da versão reiventada de um galo de Barcelos, tornado então ícone português e que tão alegremente continuamos a adoptar, sem nos lembrarmos da origem. Tal como o galo, a imagem de Portugal que então foi construida deixou resquícios, com consequências interessantíssimas de analisar aliás. O MAP era uma das mais preciosas e insubstituíveis peças de estudo sobre a “política do espírito” do regime, onde coube também a invenção primitiva da imagem de um país, tão fascinante de perceber nesta era triunfante do marketing. Mas como sempre, e sobre isso estamos conversados, tudo o que incomoda uma certa geração neste país guarda-se na gaveta ou, no caso em causa, degola-se com orgulho, arrogância e desprezo pela curiosidade, inteligência e espírito crítico das gerações que se seguem.

Assim sendo, esconda-se a colecção, entapumem-se os murais e venha então a cópia do Museu da Língua de São Paulo. E vivam os plasmas, essas maravilhas que encantam a gente deste regime.


Crónica de Catarina Portas, Público 26 Maio 2007
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